Apenas um espaço para divulgar e publicar meus poemas, contos, crônicas e ensaios antes que as traças de minha gaveta devorem os originais.

Quarta-feira, Janeiro 07, 2009

O Muro

Um muro. Ninguém sabia ao certo desde quando estava lá ou o que era antes. O fato é que agora era apenas um muro. Um muro no meio do nada, sem nada em volta. Nada em volta além de gente, aos milhares que vem de partes distantes só pra encostar no muro. Começou como quem não quer nada. Num dia fatídico alguém cansado de sua viagem resolveu encostar no muro para dar uma descansadinha. Encostou lá e ficou. Como não tinha nada pra fazer, resolveu fazer o que humanos fazem de melhor: se lamentar. Lamentou a vida, o trabalho, a pobreza e a riqueza, lamentou o amor, a prole, a terra, a guerra. Quando não agüentava mais lamentar foi embora.

No dia seguinte trouxe outro pra lamentar consigo. E assim foram se ajuntando, muitas centenas para lamentar. E tanto lamentavam que atraiam para seu em torno mais lamentações, tornando a terra do muro lamentável.

Assim são os muros, eles dão aquilo que recebem em dobro. Houvera uma vez, muito longe desse, um outro muro banhado a ódio. E tanto ódio havia nele que ruiu e foi abaixo. Tinha um outro que separava um país o cortando ao meio, e era tão grande que dava pra ver do espaço seu povo separado. Construímos muros para separar, segregar, proteger, confinar. Sempre foi assim, e cada muro gerava em seu entorno o que as pessoas neles depositavam, fosse ódio pela segregação ou o medo pela suposta proteção.

Mas aquele muro era diferente, era só para se lamentar e o povo do muro não ligava muito pra outros muros por aí a fora. Gostava mesmo era de se lamentar encostando no muro. E de tanta lamentação o muro já lamentava sozinho. O muro lamentava por seu povo sempre em guerra, promovendo um genocídio e expulsando da terra um outro povo. Esse povo gostava era de pedra. Não muito longe dali havia uma pedra. Ninguém sabia ao certo desde quando estava lá ou o que era antes. O fato é que agora era apenas uma pedra. Uma pedra no meio do nada, sem nada em volta. Nada em volta além de gente, aos milhares que vem de partes distantes só pra dar voltas ao redor da pedra.

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Terça-feira, Novembro 25, 2008

Os Clowns daqui choram como os de lá

Estranho transeunte entra no ônibus. Ele porta uma sacola. O que terá lá dentro? Balas. Ele traz balas. Veste uma camisa xadrez e uma calça social, usa óculos e cabelinho arrumado. Junto com tudo porta uma aparência cheia de trejeitos inseguros dignos de pena.

Distribui as balas entre os passageiros fazendo uso de um português impecável. Seus modos respeitam a boa educação ditada pelos manuais de etiqueta inglesa. Bom dia. Queira segurar, por favor. Um minuto de sua atenção. Segure aqui por favor. A mão meio tremula e vacilante entrega três pacotes de jujubas de menta.

Ao entregar tudo começa seu discurso. Algo como Queriam me dar licença e Desculpem atrapalhar a viagem de vocês. Mas todos temos, e devemos, honrar nossos compromissos. E como Cidadão responsável e desempregado que sou, estou aqui humildemente trabalhando.

Ainda completa depois de algumas tabelas de preço decoradas, para aqueles que se compadecerem posteriormente, um website por onde possam fazer seus donativos. E saiu recolhendo as moedas daqueles que se tornaram persuadidos por seu nobre discurso.

Por um breve momento tive empatia pela figura. Percebi a dificuldade que alguém de provável classe média, que se via agora na rua da amargura, a se expor, comprometendo a sua própria dignidade, algo muito caro e importante para alguém que não tem que lutar pra sobreviver. Foi quando me dei conta de sua força, da força do personagem. E por um momento duvidei, achando que talvez tudo não passasse de um ato muito bem encenado, um artifício muito sagaz, de uma mente tão inteligente e criativa que merece respeito.

E pensando muito sobre isso e observando a figura a minha frente percebi mais uma vez: é totalmente encenado, mas não é consciente. Houvera talvez um tempo em que a dignidade lutou contra a realidade e ocasionou tamanha insegurança a ponto de criar uma persona. Com o passar do tempo, e difícil estimar quanto e quando aconteceu de fato, sua insegurança se travestiu numa máscara muito conveniente para a situação e a partir dali não era mais um cara inseguro a pedir misericórdia e sim um clown que inspirava o sentimento misto de compaixão e pena, também não sendo muito possível distinguir um limiar claro. Uma vez transformado seu inconsciente no artista sagaz, que usava de palco aquele ônibus, e que deixava de existir assim que descesse porta afora dizendo sua enunciação final, ele conseguia um ganha-pão.

E eu ali no ponto como arlequim vencido tentava entender toda a cena, fazendo pensar, existirá mesmo um palco social?

Pierrots uni-vos.

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Segunda-feira, Outubro 20, 2008

Série Casa de Famíla - Prana

Prana

Se você algum dia tivesse a oportunidade de visitar a família Prana, perceberia que esta não é uma família como outra qualquer. A família Prana se mantém sempre em um estado de espírito elevado de consciência humana, buscando a iluminação de suas mentes por práticas distintas como a yoga, o vegetarianismo e os esportes aquáticos.

Se você por curiosidade pudesse visitar a família Prana perceberia que um melhor vocábulo aplicado a esse léxico seria clã Prana. Isso porque o clã Prana constitui na verdade três famílias em uma, através de um convívio intimo de anos e gerações: respectivamente os Prana, propriamente dito, os Pacholí, e os Kundalini. E é claro o Sr. Pereira. O senhor Pereira é um gay radio jornalista, corintiano roxo e bom futebolista, que convive com os Prana desde a infância, mais precisamente com Daniel Prana, o filho mais velho, quando moravam no mesmo condomínio. Os Pacholí são amigos de faculdade dos pais de Daniel e Isabela Prana, e seus filhos Danilo e Gabriel Pacholí cresceram juntos, brincaram juntos e juntos foram expulsos da catequese. Os Kundalini são os primos dos Pacholí, Juliana e Edgar. Mas para que essa história não fique mais confusa do que já está vamos nos concentrar nos Prana, propriamente dito.

Ernesto Prana é o pai, dedicado empresário e pai convicto, é o co-protagonista da história que vou contar. Ernesto é casado com Marina Silva Prana, fisioterapeuta. Eles se conheceram no Campus da Universidade de São Paulo. Ernesto andava de bicicleta depois da aula de história e deu carona na garupa para a caloura que estava perdida em frente à praça do relógio. Ali começou o namoro que se estenderia pelos anos de faculdade, culminando num casamento e numa família com mais dois integrantes, Isabela e Daniel. Isabela nasceu com um lápis na mão e logo que saiu fez questão de desenhar o próprio parto. Ela e o desenho são inseparáveis. Quando criança pintava todas as paredes da casa com giz de cera. Hoje é uma designer famosa e toca em paralelo uma vida de artista plástica. Daniel é publicitário e professor de yoga. Daniel não come carne, diz que isso atrapalha os exercícios de yoga para atingir o Samadhi, e a história que vou contar é de como esse vegetarianismo começou.

Sabe, o vegetarianismo é um processo: primeiro se corta da dieta a carne vermelha, depois de alguns anos o frango e depois o peixe. Nossa história se passa no último estágio desse processo, quando Daniel iria parar de comer peixe e o grande acontecimento que o levaria a isso.

Daniel e seu pai Ernesto tinham uma ligação muito forte, quase mística. Foi pela influência do pai vegetariano que Daniel parou de comer carne. Daniel partiria para uma viagem de intercâmbio e passaria 6 meses na Nova Zelândia, bem longe de usa família. Mas ainda há quilômetros de distância a ligação deles continuava e Ernesto conseguia saber quando algo de muito importante ou inusitado acontecia com seu filho.

Pois bem, era uma tarde de domingo e Daniel ia sair com o pessoal do albergue para fazer uma viagem turística numa grande montanha nevada. Tinham almoçado numa lanchonete e Daniel teve que se contentar com um peixe grelhado ao molho de curry verde e barbecue, a única opção do cardápio que estava dentro da sua dieta. Tinham começado a longa caminhada para conhecer uma geleira que nunca derretia, quando de repente uma dor de barriga fulminante acometeu Daniel. Seu estomago roncava como que com fome só que de um jeito diferente. Roncava como nunca tinha ouvido antes e sentia não aquele vazio doloroso da fome, senão um estrondo grave como um tambor de guerra. Daniel disse ao instrutor: “Acho que preciso ir ao banheiro”. E o instrutor o responde: “Não tem como. O banheiro mais próximo fica a 10 km daqui. Você vai ter que segurar”. Aquilo era preocupante. Daniel não se agüentava dentro de si e começava a andar mais lento, mais apertado, mais rebolado, quase numa marcha atlética. Enquanto isso, do outro lado do mundo seu pai se revirava no sono, suando frio, sonhando com algo muito incomodo. Daniel estava em estado crítico, já tinha ficado por último na fila para que na primeira oportunidade pudesse devolver a natureza aquele maldito peixe com curry. Chegaram à geleira e Daniel não conseguia nem mais ouvir o discurso ‘National Geografic’ do instrutor sobre a sagrada, milenar e inviolável geleira, intocada pelo homem, pura e branca. Daniel tinha medo de peidar sem que isso fosse acabar num catastrófico desastre. Mais uma vez seu pai, do outro lado do mundo, começa a se revirar na cama. Daniel não podia mais suportar. Esperou seu grupo se afastar. Olhou em volta. Não vendo ninguém arria as calças e começa. O momento tão esperado finalmente tinha chego, não dava mais pra se conter, era tão aliviante que Daniel não podia conter sua felicidade “AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH”. Quase chorou de tão feliz que estava. “Mas e agora? Como vou limpar?” Daniel põe a mão na testa tentando achar uma solução. E lá estava ela bem na sua testa. A mão com luvas. Luvas aveludadas, macias e (depois disso) descartáveis.

Do outro lado do mundo Ernesto acorda desesperado. “Marina acorda!! Marina acorda!” “Que foi, Ernesto?” “Eu preciso comer bacalhau.” “O QUÊ?”

“Eu preciso comer bacalhau agora.” “São três horas da manhã Ernesto! Onde é que você vai encontrar bacalhau?” “No posto 56”.

Daniel, de calças arriadas, numa das cenas mais inesquecíveis da sua vida, limpando a bunda com a luva aveludada vê um flash e imagina o pior. Sim, o pior tinha acontecido: Um grupo de japoneses alucinados tiravam fotos sem parar do turista que do outro lado da geleira tinha cagado na paisagem de 5 milhões de anos, intocada pelo homem até então, e que ainda de calças arriadas limpava a bunda com a própria luva.

Sem jeito, e sem muito o que fazer naquela situação, Daniel sorri e acena com a outra mão para as câmeras como se fizesse pose, jurando que nunca mais na vida comeria peixe, enquanto que do outro lado do oceano seu pai andava 56 quilômetros de carro só pra matar a saudades de comer bacalhau.

É o universo é sábio: o que tira de um dá ao outro.

Augusto M. dos Anjos

29/09/08

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Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Série Casa de Família

A Casa de Brigadeiro



Alberto Vidaboa passou um ensinamento importante pra seu filho Leonardo, que esse certamente levará por muito tempo: “viver não é fácil, filho. Tem muita pedra no caminho pra contornar. Mas no fim das contas é bom pra caralho.”. É, Leonardo bem o sabia.
A história de Leonardo já começa em provação no ato do nascimento. Alberto Gonçalves Vidaboa e Luciana Vettri Vidaboa não pretendiam ter um filho tão cedo. Ambos eram estudantes de medicina na Federal de Uberaba. Para sustentar o filho, Alberto trocou os bares do Centro Acadêmico por uma barraquinha de cachorro-quente. Estudava de noite e de dia corria atrás do ganha pão e da fralda do menino. Provavelmente a determinação empregada nessa época da vida levou a luta como um hábito incorporado da família.
Com doze anos Leonardo vivia na casa de dois respeitáveis cirurgiões da região mogiana do estado de São Paulo. Uma casa cheia de riqueza e felicidade. Leonardo tinha duas irmãs. Paula, a do meio, puxará bem o pai e desde cedo se mostrou estudiosa, organizada, determinada e pragmática. Camila, a menorzinha, puxava o irmão e a mãe. Esses por sua vez sempre demonstraram um amor pelo perigo, pela boemia, pela impulsividade e por uma alegria contagiante; ainda que por enquanto Leonardo não tenha exercido na plenitude essas qualidades.
Leonardo faz hipismo. Seu pai é seu treinador. Ele cai do cavalo. A dor é avassaladora.
“ Você caiu? Pois LEVANTE. Vai deixar esse bicho te vencer!” Leonardo levanta, ainda meio com dor sobe no cavalo e volta a treinar. Não ousou responder ao pai. Manteve o silêncio resignado. No fundo sabia o quanto aquilo era importante. Faltavam 2 dias para a competição. Leonardo treina exaustivamente. Depois de 6 horas ele e o cavalo são um só. Um majestoso centauro que salta impiedosamente todo obstáculo no seu caminho. Até que a parte homem cede e desfalece no chão de cansaço e desnutrição enquanto a parte bicho continua a cavalgada até o fim da prova. A vida parece drasticamente desafiante. Comportamentos como esse condizem com a personalidade e a psique de Leonardo, um garoto hiperativo.
Com 16 essa hiperatividade se une ao ímpeto juvenil. Leonardo tem uma moto e costuma sair com seus amigos para praticar motocross sem capacete. Joga vídeo-game 72 horas seguidas até conseguir finalizar complexos jogos de RPG. Desmonta e remonta seu computador inúmeras vezes só pela gana de se aprofundar ao máximo em um assunto. E apesar disso procura expandir seus horizontes tentando conhecer um pouco de tudo, física, matemática, história, filosofia, arte. Essa gana de viver lhe é implícita, é sua essência. E o desafio é como o combustível que o move, ainda que esse desafio seja subverter a tradição familiar. Na época do vestibular Leonardo resolve boicotar a prova para a faculdade de medicina em Uberaba e presta Publicidade em São Paulo. O simples fato de contradizer a ordem estabelecida já o excita. Ele sabia que estava comprando uma bela briga com os pais e ainda assim o fez. Revolucionário de plantão, Leonardo, apesar dos pesares, sempre foi o mais carinhoso de toda família e seu carinho transborda sua alegria de viver em sorrisos constantes que contagiam a todos. Afinal “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”. Mais uma batalha vencida e a vida vai se estabilizando novamente num céu de algodão doce. Leonardo tem um apê alugado próximo a faculdade em São Paulo e no último fim de semana de cada mês volta para o interior para ver a família e a namorada que tanto estima. A doce Laura Vega, estudante de artes cênicas. A vida parece perfeita. Mal sabia Leonardo que o verdadeiro desafio estava por vir.
Era uma tarde ensolarada de domingo e depois de assar um bolo de fubá e passar um café, Luciana sorvia a bebida quente na varanda olhando fixamente para o céu e apenas aproveitando o passar do tempo sereno. Leonardo deita ao seu lado, com a cabeça no seu colo. Eles conversam suavemente pela tarde caindo sobre bobagens corriqueiras e tão agradáveis de se papear. O sentimento no ar é de uma sublime despedida, ainda que não houvesse motivo para tal. Ambos aproveitavam o prazer da companhia um do outro naquela tarde como se o tempo lhes escorresse pelas mãos e tivessem a certeza de que aquele momento seria inesquecível, não se repetindo jamais.
Na segunda a noite, já em São Paulo, Leonardo recebe uma ligação. A mulher no outro lado da linha parecia pesarosa ao falar. Luciana tivera uma parada cardíaca no vestiário da ante-sala de operação. Não foi socorrida a tempo e apesar de terem-lhe salvado a vida, ela entrou num estado vegetativo devido a lesões no tecido cerebral por falta de oxigenação. Não havia volta. Não havia esperanças de melhora. Ela se fora para todo sempre ainda que continuasse lá. Não era mais ela. Era um outro alguém com o rosto dela, alheio a tudo que o cercava.
Como sobreviver a essa agonia. Como curar essa dor aguda e constante. Essa melancolia que pesa no corpo. Esse vazio. Essa falta. Já não há desafios que valham a pena. Já não há porque lutar. Já não há porque viver e sim apenas se deixar levar, ao leo pela existência fatídica. Claro que existe ainda o apoio daqueles que ficam e nos amam. O valente e determinado Alberto Vidaboa devia agora se mostrar mais forte do que nunca. Devia suprir ambos os papéis, materno e paterno, para seus três filhos e ajuda-los a superar a dor latente da perda. E Laura também estava lá dando seu carinho e consolo. Nenhuma outra faria igual por ele com tamanha dedicação em fazer do seu relacionamento um ponto de partida para uma nova fase. Mas era tarde e Leonardo já havia se perdido. Perdeu seu foco. Se entregou, com a mesma determinação que cavalgava, aos prazeres mais boêmios, tentando suprir a dor com um hedonismo desenfreado. Leonardo Vidaboa viveria custe o que custar e doa a quem doer. Seu namoro com Laura já não funcionava, já que havia ali um certo desapego, uma despreocupação sutil e por conseguinte um distanciamento progressivo. Leonardo ainda era carinhoso, gentil e sorridente, transbordando alegria, como sempre fora. No entanto estava sempre distante, sempre num sorriso quase ausente. O namoro por fim chegou ao seu desfecho. E agora Leonardo podia se entregar totalmente a vida e vive-la sem culpa e sem pecado pois não havia a quem responder. Ele era totalmente livre. Livre para o que der e vier. Para cada bar e cada festa e cada samba de roda e cada lira dessa grande metrópole.
E foi justamente numa dessas festas que Leonardo finalmente se reencontrou. Ou melhor encontrou Karina. Karina, morena de 1,75 bem torneada, era independente, sofisticada, hedonista como nosso amigo, no entanto bem sucedida executiva e preocupada com a carreira. Às vezes excessivamente preocupada.
Era um fim de festa no edifício Copan, Leonardo vê Karina num canto. De repente Leonardo só vê Karina e mais nada. Ele a puxa pra dançar. Um passinho pra cá, um passinho pra lá, uma conversa ao pé da orelha, uma longa conversa ao pé da orelha, até que finalmente um beijo. Não simplesmente um beijo, mas um momento de êxtase único e incomparável, o encaixe perfeito entre lábios, bocas que casam com primazia e que a cada movimento se complementam. Leonardo abri um sorriso de orelha a orelha, como uma criança que acaba de ganhar um doce ou um pensionista com um bilhete premiado da loteria acumulada. Karina flagra e justamente nesse momento seu coração palpita de emoção. E de um sorriso farto começa uma história de amor e devoção. Leonardo se reforma, só a olhos para ela, a vida tem novamente sentido e ele finalmente pode voltar a ser um Vidaboa.
Karina mora na Av. Brigadeiro Luiz Antônio, num apartamento modesto próximo ao metrô. E é assim que Leonardo ganha uma segunda casa. Sua casa de brigadeiro, onde as noites são doces e suaves, onde a vida flui com alegria sutil que emana em perfume de flores pelo ar. É terça-feira, Leonardo compra um vaso. Um belo vaso e coloca na cabeceira da cama: “Esse é o nosso amor. Aqui nós o vamos cultivar. Essa é uma flor para você minha flor, que colocarei aqui e que a cada nova terça-feira hei de trocar.”
Mas nem tudo na vida é um mar de flores. Karina tinha sido muito calejada por antigos relacionamentos e sofrerá muito. Assim mantinha sempre um pé atrás e com o histórico de nosso herói, essa coisa de confiança não ia lá muito bem. A bem da verdade que ninguém muda do dia para noite e, apesar de Leonardo só ter olhos para Karina e a venerar em sua beleza e plenitude, ele continua por vezes distante e despreocupado. Não de propósito mas por hábito. De maneira que por mais que a amasse imensamente não pode cumprir sua promessa e esqueceu de flores novas na terça-feira ou uma conversa de desabafo de vez em quando. A desconfiança de Karina e o An passan de Leonardo foram corroendo a relação. Até que Karina preferiu estar sozinha a ter alguém com quem não podia sempre contar.
Mas a vida é assim, vivemos em momentos diferentes uns dos outros e nem sempre estamos prontos e disponíveis para qualquer situação. Às vezes precisamos evoluir e para evoluir é preciso um safanão da vida, é preciso perder algo para ganhar outra coisa por outro lado. Leonardo Vidaboa sentiu profundamente o fim desse namoro e percebeu o quanto a amava, o quanto havia se perdido e o quanto ela havia lhe salvado. Leonardo se propôs então a deixar na porta da casa de brigadeiro uma flor a cada nova terça-feira. E a flor ia do capacho para o lixo. E na próxima terça-feira outra flor.
Foram 4 meses até que a flor fosse da soleira da porta para dentro do vaso na cabeceira. E ainda hoje está lá, a flor de laranjeira no vaso da cabeceira da casa de brigadeiro. E a casa pode ser novamente completa e plena.








Augusto Moreno dos Anjos
30/08/08


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Domingo, Maio 18, 2008

Ensaio sobre o Fim

O fim é amargo como café.
De um amargor suave que permanece na boca por um tempo. O fim tem essência, tem corpo, tem aroma. O fim é puro e sem açúcar.
Mas assim como café, também há no fim propriedades revigorantes, que quebram de leve a sonolência e que nos deixa naquele estado semi-acordado de uma sesta não durmida.
O fim nos faz pensar. No que foi, no que há, no que será. O fim nos faz esquecer. E esquecendo, continuamos a viver para um dia lembrar.

Fim.

Augusto M Anjos
17/05/08
16:53

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Terça-feira, Fevereiro 26, 2008

Sadia? Quem sabe

Notícia da Folha de São Paulo comenta nesta terça-feira que dois pedaços de pizza congelada, segundo pesquisa realizada pelo IDEC, contem a mesma quantidade de gordura e sódio que 20 pratos de filé de frango com brócolis, arroz, feijão e salada ou 6,5 pratos de filé à milanesa com arroz, feijão e salada de maionese. Realmente espantoso e difícil de acreditar em tão estrondosos números dessa pesquisa, e não querendo mas já fazendo o papel de advogado do diabo, repitamos a informação para que ao leitor atento perceba através do tom o grau de veracidade da informação: são 20 pratos de filé de frango com brócolis, arroz, feijão e salada ou 6,5 pratos de filé à milanesa com arroz, feijão e salada de maionese. Realmente espantoso. O que tem a dizer sobre isso os produtores de frango, os produtores de brócolis e os hortifrutigranjeiros?
Não que minha notável estima pela culinária italiana, tão apreciada por nós paulistanos, tenha induzido meu pensamento ou suscitado suspeitas. Mas algo cheira mal nessa cozinha.

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Cidadania e Oportunidade x Caridade

É de se esperar que o PT aja como um partido de esquerda e faça medidas e ações que beneficiem a parcela mais pobre da população. No entanto, espera-se também que não haja amadorismo social ou desperdício das reservas dos cofres públicos. O Programa Bolsa Família é nitidamente um desperdício de verba assistencialista e filantrópico sem nenhum fim em si mesmo. Nada contra a filantropia, mas um governo que se preze, que planeja o futuro da nação, e busca um desenvolvimento igualitário e humano deve ser tudo, menos assistencialista e filantrópico. Ele deve se preocupar sim com a desigualdade social e com a fome e com o baixo IDH, ainda mais sendo de esquerda, pois é isso que se espera dele e que certamente por mais social democrata que sejam os nomes, todos sabemos muito bem que a esse respeito muito pouco será feito.
Em contra partida, o novo programa social do Governo Lula é de uma excelência ímpar, na medida que age sobre as 16 regiões do pais com menor IDH, viabilizando a formação de uma infra-estrutura capaz de trazer mais educação e qualidade de vida, pela construção de estradas, ampliação de rede elétrica, programa de desenvolvimento de agricultura familiar entre outros. É realmente uma pena que essas ações tenham começado a ganhar investimento pesado apenas agora em ano eleitoral, afim de favorecer seus coleguinhas e aliados.
E enquanto isso nosso presidente volta a defender a menina de seus olhos, o programa Bolsa Família, dizendo que não tem pressa para dar fim a esta calamidade desenvolvimentista. Isso denota mais uma vez, que nosso excelentíssimo presidente é muito bem assessorado, mas que de política e, diria até, de socialismo, não entende nada. Mas o que se poderia esperar de alguém que acha que a situação favorável da dívida brasileira é obra divina. Depois dessa Deus salve Guido Mantega, e mais importante, lhe dê paciência.


Augusto Moreno dos Anjos
26/02/08

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Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Maçonicamente inviável

Acorda atrasado de manhã, põe a primeira roupa que vê pela frente, uma calça jeans punk toda rasgada e uma dessas camisetas da moda que parece do avesso. Sem tempo para se pentear pega alguma coisa para comer no caminho, sai correndo até o metrô.
Despenteado e esbaforido chega ao consultório (psiquiatria), onde a recepcionista o pede que aguarde. Ao entrar na sala do medico se em frente a um estereotipo psiquiátrico, semi-cavanhaque, grisalho, com entradas na testa tão salientes que via-se o cabelo que despontava da nuca ao côco da cabeça. Era praticamente Billy Crystal em “a Máfia volta ao divã”. O médico olha ressabiado a estranha indumentária do figura:
- Bom dia.
- Bom dia, doutor.
Ele aponta para que se sente.
- Você tem algum antecedente psiquiátrico?
- Não que eu saiba
- Em que posso ajuda-lo?
- Estou a ponto de entrar em uma Instituição e me foi solicitado um atestado de sanidade mental, do qual dependerá o meu ingresso.
- Entendendo. E Qual seria essa Instituição? – estranha o doutor o procedimento pouco usual.
- Isso eu não posso lhe dizer.
- Por que não? – pergunta ele, agora realmente encafifado.
- Porque arracariam-me a língua e cortariam-me a garganta.
- E como eles saberiam que me contou
- Eles sabem
- Eles sabem? Sua família tem histórico psiquiátrico, meu rapaz?
- Meu bisavô é o poeta Augusto dos Anjos
- Era?
- Não, é!
- Aham
- E meu primo em 2º grau era psicopata. Matou metade da família.
O doutor aperta o interfone:
- Enfermeira, queira me ajudar aqui, sim.
- Então, doutor, quando eu posso ter esse atestado?
Em tom conciliatório:
- Ora assim que eu assinar esse papel aqui. Só gostaria que o senhor retirasse sua via em outro estabelecimento em que clinico.
- Qual, doutor?
- No Charcot, a enfermeira vai lhe acompanhar até o transporte adequado e temos uma vestimenta melhor para você também. Tenha uma boa vida meu senhor.
- O senhor também, doutor. Viva a revolução!



Augusto M. dos Anjos

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Nascimento de Vênus

Eis que da espuma do mar
Nasce com glamour ao meu olhar
Tão bela, tão singela

Ela que dança a beira da praia
Tocando com os dedos do pé a areia fofa e molhada

Com a água a molhar seus tornozelos
Andando com graça, quase a rebolar
Sambando com ginga encima da água como a deusa que é

Ouvindo um seilá-oquê bom de mais no ipod
Que deixa ela assim de olhinho fechado para todo mundo ver

Ela sabe que a olham
Exerce todo o seu poder

Ela sabe.


Augusto M. dos Anjos
01/01/08
16:40

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Perspectiva de Morte Poliana

Ao olhar para um céu estrelado o vemos? Vemos o passado. Onde grandes brilharam por muito tempo e sua luz, aqueceu a tantos e brilhou tão longe que, hoje, mesmo depois de sua morte, ainda podemos vê-los.
Quero também, ao chegar a minha hora, poder olhar a morte como que olha o céu; e ter a certeza de que brilhei para muitos, por muito tempo, até que um observador de um tempo além, possa olhar com admiração aquilo que fui já a milhões de anos.
Apenas solene como o Sol.

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Terça-feira, Janeiro 22, 2008

Lembrança

Sentado no parque a admirar a natureza. Olha para o lado e o que vê? Um busto, daqueles em bronze ou chumbo esverdeado. Um rosto. Nada reconhecível, nada famoso, nada familiar.
Logo abaixo, um espaço, vazio e sujo, um símbolo do vandalismo daqueles que lhe roubaram a placa memorial para derreter e fazer dinheiro.
Eis que olha para o busto, e o busto lhe olha:
- Triste fim esse de arrancarem-lhe a memória. Não só morto, mas esquecido, esquecido e presente. Eternamente lembrado no esquecimento.
Eis que o busto responde:
- Antes isso que nada. Antes um rosto sem nome que um nome sem rosto. Antes um “Fulano Quem?” E você terá um busto como eu?
- Só o tempo e a sorte hão de dizer. Aqui reconhecimento só com a morte.
- Por vezes nem com ela.




Augusto M. Anjos

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Domingo, Novembro 25, 2007

Série Casa de Família - Mansão Andrade Morais

(A meu valoroso amigo Pedro)


No alto de um morro no Pacaembu foi construída a Mansão Andrade Morais. Seu proprietário e idealizador, o Barão Vicente de Andrade Morais, dono de muitas terras, de metade de toda a rede hoteleira das praias de Intanhaém e prefeito da singela cidade praiana. Construiu a casa num dos ponto mais altos da cidade, tão alto que da varanda do seu quarto pretendia ver o mar da saudosa baixada. Infelizmente com o passar do tempo a pomposa Av. Paulista deixou de ter suas gloriosas mansões e passou a ter arranha-céus que tapam a vista de qualquer mortal.
O Barão de Morais, honrado homem que era, desposou Emily Chantèle Traviata, uma nobre franco-italiana, cujo pai era dono de uma pequena ilha no sudoeste italiano, conhecida carinhosamente pelo nome de Sicília. Emily era a perfeita combinação das duas culturas, de personalidade forte mas doce, ela tinha a elegância francesa e a alegria italiana.
Barão e Baronesa Morais tiveram um único filho, a quem devotavam todo seu amor, Caio Felipe de Andrade Morais. A Família Andrade Morais foi sempre criada através dos bons costumes e dos mais altos preceitos morais. Com Caio não seria diferente, católicos fervorosos que eram, fizeram da vida de Caio uma predileção a inúmeros rituais: batismo, catecismo, 1ª comunhão, eucaristia, recitação do lecionário, crisma, domingo de ramos e auto de natal. Foi coroinha, diácono, sacristão, aspirante a seminarista. Mas Caio também foi arteiro e fez das suas quando criança. Com estilingue no bolso direito e terço no bolso esquerdo, ele comandava os atentados de maria-fedida na casa de dona Lurdes e amarrava traque em rabo de gato. Uma vez fingiu dor de barriga pro padre da escola, afim de matar a aula de matemática e ser dispensado da prova; o Sr. e a Sra. Morais chamados e Caio agüentou bem a sua farsa até quase perder o apêndice, minutos antes do doutor deitar o bisturi em sua barriga. Era tarde, até hoje Caio tem uma cicatriz de 1 ponto cirúrgico, que foi o que o medico cortou no susto da revelação de sua traquinagem infantil.
O tempo passou e caio cresceu. Foi para a faculdade de direito, bebeu muita cerveja num bar em frente a estátua do beijo, no largo São Francisco. Estagiou no gabinete de um famoso juiz da junta militar que participou da constituinte de 67. Pendurou a conta em muito restaurante ali do centro e aproveitou pra curtir a vida com muita estudante do 1º ano. Mas foi no carnaval de 72, em Salvador, que Caio conheceu Luana, a quem na comunidade soteropolitana chamavam carinhosamente de Lua. Lua era também advogada, formada pela Universidade Federal da Bahia, de família influente na elite intelectual da cidade do Senhor do Bomfim, seu pai era editor-chefe do A Tarde e eles moravam no ostentoso bairro Caminho das árvores, na cidade alta.
Foram duas semanas de lua cheia no céu da capital da alegria, em que Caio deixou as morais de lado e viveu uma ardente aventura com Lua . Na metade da quaresma do outro ano Lua viria se tornar Luana Morais. Os dois viriam residir em São Paulo, na mansão Andrade Morais, constituindo a segunda geração da família em terras bandeirantes.
Lua e Caio tiveram 3 filhos, Felipe de Andrade Morais, Caio Felipe de Andrade Morais Júnior, ou simplesmente Juninho, e Eduardo Felipe de Andrade Morais. Felipe, o mais velho, era o desbravador de morais, sempre revolucionário, pouco previsível e bastante impulsivo. Felipe aprendeu de cedo que com alguma insistência, conseguiria o que quisesse de sua mãe; ela acabaria por sua vez a convencer o pai e o mirabolante projeto seria implementado. Entre os grandes feitos que a mansão presenciou estão: o campeonato inter-colegial de futebol em sala de estar, o half de manobras super radicais no porão, a rave de 32h e 400 convidados, e por último mas não menos importante, a petição nº 1345 de jurisdição residencial, que permitia a legalização de alguns psicotrópicos naturais e de baixo teor na jurisprudência da Mansão Andrade Morais, entre eles o chimarrão. Isso porque Felipe tinha se acostumado a erva gaúcha quando, em sua viagem ao sul, foi surfar na praia do rosa, onde conheceu Bianca, bela garota porto alegrense acostumada ao chá de erva mate.
Quase tudo era permitido dentro dos muros da mansão Andrade Morais, desde que se levasse em conta os tradicionais costumes católicos não praticantes. A tradição era tão levada a sério que na parede da escada principal da casa estava uma foto autografada do Papa João Paulo II, de quando em sua visita ao Brasil vovó Emily o saudou em Aparecida. Em verdade vovó Emily não era mais a mesma desde a morte do Barão. Já com idade avançada, adquiriu uma senilidade quase poliana, estava sempre rindo e caminhando pela casa como se dançasse; vestia-se com suas peles e se maquiava de manhã para tomar o chá das cinco; vivia num mundo quase a parte, mantendo breves colóquios sobre as refeições ou quando seria novamente a hora de comer; cumprimentava a todos os visitantes à moda francesa e como manda a hospitalidade da casa, sempre se despedia deles com um “já vai?” “mas volta logo viu!” com o dedo em riste.
A casa realmente tinha uma aura muito hospitaleira, talvez por influência de costumes baianos, talvez italianos, mas o fato é que a porta estava sempre aberta para quem quisesse entrar, a cuia de chimarrão sempre cheia e, a TV da sala sempre ligada, para o caso de alguém chegar não encontrar ninguém ficar à vontade; de maneira que não importava a hora do dia, da noite ou da madrugada, sempre havia visitantes na casa. Pra quem passa na rua não é essa a impressão da mansão, já que no jardim da frente, mantendo guarda, estão dois enormes pitbulls que com uma única mordida poderiam lhe arrancar o braço. Mas sendo as primeiras impressões muito primeiras e sempre muito pouco confiáveis, não seriam esses dois ferozes animais em aparência a desmistificar a hospitalidade Andrade Morais. Se tivesse você oportunidade de ultrapassar os suntuosos portões da Mansão e desse de cara com os dois cães, eles provavelmente lhe cheirariam as costas da mão e, logo em seguida, enquanto o macho esfregaria a cabeça em sua perna pedindo carinho, a fêmea deitaria de barriga pra cima pedindo cócegas.
Foi num belo dia de domingo que Juninho viria a proferir a frase que entraria pros anais da família Andrade Morais, mudando todo o curso da (H)istória. Era pouco depois da hora do almoço, quando a fadiga toma conta de todos, leve, lenta e esperada, impedindo que se levantassem sem um dispendioso e desnecessário ato. A família terminava a sobremesa, quando Juninho, olhando para o pudim que mal havia tocado, disse “Mãe, eu sou ateu!”
Todos os talheres caíram ao mesmo tempo das mãos frouxas de perplexidade, cintilando em uníssono e dando ao momento um quê ainda mais melodramático. “Como você tem a coragem de desgraçar a sua família dessa maneira, meu filho” “MÃE, é só uma religião. O cara não morreu na cruz, ele nem existiu” “Você não ouse falar nesse tom comigo, mocinho” “Ou o quê? Deus vai me castigar?” “Agora já chega, pro seu quarto!”, e ainda com o dedo em riste, enquanto Juninho subia as escadas Lua ordena em sussurro “Caio, ligue pro padre Julio, temos que resolver essa situação” “Pra já, isso não vai acontecer na minha família”.
Em menos de 20 minutos estava padre Julio à porta do quarto de Juninho com defumador e água benta em mãos, seu ajudante levava uma enorme cruz de madeira e um livro de capa preta e páginas vermelhas. O padre tentou primeiro a diplomacia, “Juninho, por Deus nos deixe entrar” “Nem fodendo! Nem por ele, nem por você, nem por ninguém” “ Não fale assim garoto, ele está de ouvindo” “Sim, e nesse momento está em conferencia com Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Fada do Dente para decidir o meu destino” “Não blasfeme garoto ou eu...” “Você o quê? Vai se bolinar com seu coroinha, seu pedófilo viado”
Não ouviu mais palavra, padre Julio botou a porta abaixo a ponta-pé e entrou com violência. Começa o ritual: Juninho amarrado na cama falava um palavrão a cada respingo de água benta que atingia sua testa de tempos em tempos, ou entre um canto gregoriano e outra recitação em latim. “In Nomini Cristi, Rex rexorum, Domini Dominorum, Figli di Deo, abbandonate questo corpo che non appartiene a voi, creatura di inferno” “seu filho da puta” “Uova di Lúcifer, esca regno di Lux” “Corno, viado” “♪Cursum perficio. Verbum sapienti: Quo plus habent, Eo plus cupiunt. Post nubila, Phoebus Iternum ♪” “Me tira daqui seu desgraçado”.
O coroinha passava pelo quarto com o defumador exalando arruda e sândalo e a família assistia a tudo atónita. Até que aconteceu. De repente, como se houvessem desligado um botão, Caio desfaleceu vindo ao chão num supetão e num grande estrondo que deixou a todos em completo silêncio imóvel. Tudo parou, a cantoria, a chingadeira, e até a fumaça, tudo corroborando para a dramaticidade do momento. O próximo barulho a quebrar o ensurdecedor silêncio da casa seria o tilintar contínuo das sirenes de ambulância.
Diagnóstico: Acidente Vascular Cerebral por isquémia, vulgo derrame. Sequelas: perda de algumas funções motoras para nós tão familiares e corriqueiras, como comer, escrever, dirigir, trabalhar, por vezes falar. Caio ficou em observação por 1 semana e depois voltou a casa, desanimado, desorientado, desamparado de si mesmo, desesperançoso quanto ao resto de seus dias e a um diagnóstico que o impedia de fazer quase tudo. É em momentos como esse que se entende a essência do que significa o vocábulo família. Seres que convivem tanto tempo juntos, brigam, discutem, se amam, se odeiam, mas se apoiam, se sacrificam em nome uns dos outros. Assim foi, Lua alimentava Caio a cada refeição como a um bebê, até que esse sentisse confiança e firmeza na mão para comer sozinho; Felipe levava o pai de carro para onde ele quisesse; Eduardo ajudava o pai no banho até que também se sentisse confortável para realizar a tarefa sozinho; e Juninho, bem Juninho escrevia. Das quais pode parecer a função menos importante, mas foi justamente essa que devolveu o vigor e a esperança a Caio.
Um dia Juninho se deparou com o pai tentando escrever poesia como costumava fazer há algum tempo nas horas livres. A mão trêmula e sem controle riscava a folha de forma displicente, por vezes derrubando a caneta devido a tamanho esforço físico e mental. “ Pai, deixa que eu escrevo.” Caio olhou por um momento para o filho meio relutante, meio surpreso, como se tivesse sido interrompido de uma tarefa muito importante e de tão concentrado que estava demorou para se relocalizar no espaço-tempo e entender o que o filho o dizia, “O senhor me dita, eu escrevo”, dizia Juninho enquanto pegava da mão do pai o papel, entregue ainda em ar atónito. “Escreva lá...” e Juninho ouviu e escreveu, escreveu e ouviu. Ouviu um poema que seu humilde narrador não teria gabarito para reproduzir com perfeição, um poema que falava de erros, tentativas e acertos, acertos subsequentes de erros tão banais e tão presentes a cada ato. Foi nesse momento que Juninho percebeu a perseverança do pai em transpor aquela dificuldade, nesse preciso momento, Juninho percebeu nas nuances da narração do pai o imperceptível, Juninho teve uma epifania, um momento de iluminação. Juninho conheceu nos poemas do pai, nesse e em muitos outros que viriam, um deus diferente daquele aprendido na catequese, enxergou um deus que era a capacidade humana de superar desafios intransponíveis e ainda que tudo que lhe fora ensinado na fé católica não passasse para ele de um mito, esse se faz verdadeiro através da metáfora da superação da morte e da tortura inumanas pela ressurreição de um ideal.
E a mansão Andrade Morais segue placidamente no alto Pacaembu, apenas aguardando outras inúmeras histórias e outras tantas gerações.








Augusto Moreno dos Anjos
23/11/07
14:11

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Quarta-feira, Outubro 24, 2007

Série Casa de Família - A Casa dos Oliveiras

(Recentemente participei de um concurso de contos da revista Bravo. Escrevi um conto de realismo fantástico baseado em um fato real e inusitado que aconteceu na família de um grande amigo meu. Infelizmente não ganhei o concurso, mas tive uma idéia que valeria dez concursos. Resolvi presentear meus melhores amigos, aqueles em que se frequenta a casa e que se deseja que a amizade perdure eternamente, com contos sobre suas famílias. Certa vez, li em algum lugar que se um homem tivesse 5 verdadeiros amigos durante sua vida seria um homem de sorte. Vamos torcer para que eu possa superar muitas vezes esse número; e que "A casa dos Oliveiras" seja o primeiro de um livro com muitos contos.
A meu valoroso amigo Alexandre de Oliveira Neves)



A Casa dos Oliveiras


Poderia ser uma tarde como qualquer outra na residência de praia da família Oliveira. Poderia ser uma tarde dessas em que as crianças brincam em volta da piscina esperando a hora da digestão para poder entrar na água ou ir brincar na praia. Mas a família Oliveira não é uma família qualquer, e portanto, essa não poderia ser uma tarde como qualquer outra, mas sim uma tarde de inusitadas desventuras.
A casa por si só não é uma casa comum, daquelas que comumente se vê na praia. Ela tem um estilo colonial clássico, como em estórias dos García Marques, de paredes brancas, azulejos desenhados e janelas pintadas de azul escuro, com pequenos detalhes mouros. Para sua concepção existem duas teorias:
A primeira é que o nobre casal, Sr. e Sra. Oliveira mandaram trazer a casa montada de Portugal, da praia do Porto, e de navio até as areias quentes das praias brasileiras, onde fixaram residência, fugindo da imprudência da monarquia desacreditada de Dom Carlos, que viria a morrer dois anos depois, e seguidos mais dois anos seria implantada a república. Mas a essa altura do campeonato o casal Oliveira já havia se habituado as quentes águas do Atlântico do lado de cá.
A outra teoria é que a casa tinha sido a primeira construída na região, numa época em que não havia nem cidade, pelo avô do Sr. Oliveira, o último califa de Portugal, que tinha mantido seu califado a muito custo por quinhentos anos após a formação do Estado Português e que por essa razão de árabe só tinha mesmo era o título. O avô do Sr. Oliveira, Dom Afonso Miguel Abdalla de Oliveira, perdeu seu califado em Faro para a intrépida investida das tropas napoleônicas, mais precisamente o terceiro batalhão de infantaria de Jean Jacques Lacroix, que se desgarrou da tropa e com muito faro achou o secreto califado. Dom Afonso segue então para o Brasil e monta, em terras paulistas, um califado como o seu e que por já estar acostumado com o segredo da existência, permaneceu lá, quietinho em sua “casa de praia”. E assim fizeram as futuras gerações até que a civilização cercasse o místico terreno dos Oliveiras. E por mais absurdas que as duas hipóteses possam parecer, fica a crivo do leitor eleger a que lhe for mais plausível, já que nada consta nos autos e somente isso é o que o povo conta.
Naturalmente a casa tem um grande jardim de arbustos frutíferos e ervas medicinais. O terreno é todo cercado, além dos altos muros senhoris, por uma cerca viva de oliveiras que balançam suas folhas ao vento; no portão principal, as duas mais frondosas fazem festa aos visitantes que chegam, pois se há algo que os Oliveiras gostam, tenha isso origem moura ou não, é de festas, bebidas e convidados.
E agora que já descrevi a casa, basta apresentar os integrantes da família, presentes naquela tarde de curiosos acontecimentos. O grande Sr. Oliveira, até então supra citado, leva o mesmo nome do avô, suposto califa de Faro, Seu Afonso Miguel de Oliveira Neto, foi jornalista no diário local e agora aposentado, se dedica ao nobre ofício de escritor. A grande Sra. Oliveira, Dona Gertrudes de Carvalho e Oliveira, sempre foi mulher forte e geniosa, dotada de grande ímpeto e perseverança, razão coincidente com sua descendência de duas grandes árvores de raízes firmes, foi mãe dedicada e é uma avó amorosa. Os dois filhos do casal Oliveira, Afonso, o mais velho, e Miguel, o mais novo. Empresário e bicheiro. Com suas respectivas esposas, Cláudia e Vânia.
Os filhos de Afonso são Henrique Oliveira, 14 anos, o gêniozinho da família que seguirá os passos do pai e que para passar o tempo vê os altos e baixos da bolsa fazendo cálculos matemáticos para o melhor lucro; Daniel, 12 anos, o filho do meio, adora fingir dor de barriga para tomar o chá de erva cidreira da vovó e brincar com seus amigos imaginários; Vitor, ou Vitinho, 8 anos, o caçulinha da família, um garotinho mimado e espirituoso, bem humorado e a alegria de toda a família, como todo o caçula.
Miguel tem dois filhos, Douglas e Viviane. Douglas, 12 anos, mais introspectivo e Viviane, 9 anos, mais sociável. Tão sociável que enquanto seu irmão preferia brincar sozinho, Viviane trouxe uma amiguinha de companhia, Giselle. Giselle, Vitor e Viviane costumam brincar muito juntos.
A tarde estava ensolarada. A família fazia um churrasco à beira da piscina. Henrique calculava a 15ª razão do pi e via sua compatibilidade com a lógica da cabala. Vitinho e Giselle estavam escondidos no porão da piscina, próximos a máquina, enquanto Viviane contava até 100 no esconde-esconde. Os homens ainda estavam a comer carne e beber cerveja, as mulheres lavavam a louça enquanto jogavam conversa fora. Douglas brincava sozinho ao pé da sacada com um cubo mágico que achava dificuldade em resolver. O Sr. Oliveira, sentado em frente a sua Olivetti, tentava escrever um conto sobre sua família numa tarde qualquer. E Daniel, bem, Daniel acabava de tomar o chá de erva que tinha feito sua vó fazer e foi brincar na praia, escapulindo pela porta dos fundos sorrateiramente enquanto ninguém via.
Daniel estava sentado na areia olhando para o mar que molhava seus pés num vai e vem da maré, quando viu uma silhueta a uns dois ou três metros. Resolveu puxar conversa e como estava confortavelmente sentado, gritava para sua amiga um pouco distante. Convidou-a para ir até a casa brincar no jardim. Vendo que esta não respondia se aproximou.
Nesse meio tempo, Douglas quase conseguira resolver uma face do cubo, mas botou tudo a perder com dois movimentos precipitados. O Sr. Oliveira, aparado em frente a sua Olivetti, parecia não saber se decidir qual das possíveis lendas de sua origem lhe parecia um recurso melhor para um conto de realismo fantástico. E Vitinho e Giselle, cansados de esperar Viviane que já tinha revirado toda casa a procura dos dois, resolveram aproveitar o ensejo do porão para brincar de outra coisa bem mais interessante, brincar de médico.
Daniel voltava a casa com sua amiga de praia, apelidada de Lunática, já que até agora não havia pronunciado palavra e alguma coisa em sua aparência lembrava a Daniel o solo lunar. Entraram sorrateiramente, da mesma forma que havia saído, e subiram para o quarto da avó, aquele com sacada, para que ninguém nota-se a presença intrusa de Lunática.
Tudo ia bem e perfeitamente normal naquela tarde de sábado até que, vindo de lugar nenhum, como que caído do céu, um pedregulho acerta em cheio a cabeça de Douglas. Aos gritos de desespero do garoto e o rosto ensangüentado, a família se via alvoroçada e estupefata, sem saber direito como seria possível que uma pedra daquele tamanho tivesse simplesmente caído do céu.
Corre a família Oliveira ao hospital, onde agora aguardavam ansiosamente na sala de espera, enquanto Douglas levava 7 pontos na cabeça. O sentimento de culpa era geral. Como bons católicos, cada membro da família tinha atribuído a si uma parcela de mea culpa do estranho incidente. Dona Gertrudes se penitenciava, achando que era um castigo de Deus pela sua falsa idolatria, já que certa vez, na dúvida da verdadeira origem de seu marido, achou que não fazia mal nenhum se rezasse seu pai-nosso virada para Meca, só para garantir. Henrique achou que tinha conjurado um meteoro ao decifrar os estranhos teoremas hebraicos. Vitinho, acostumado desde muito cedo com a culpa católica e com a onisciência divina, sentiu-se chateado por Deus ter punido seu primo por ter visto ele e Giselle “fazendo coisa feia” como dizia sua avó. Miguel se lastimava por ter comido carne na última sexta-feira santa. Viviane se fez jurar nunca mais blasfemar para nada, pois irritada com o esconde-esconde ela tinha gritado, justamente no momento do ocorrido, para todos ouvirem em alto e bom tom que não acharia Vitinho e Giselle nem que chovesse pedra. O Seu Oliveira resolveu que não escreveria mais realismo fantástico, pois no seu conto pedras caiam do céu.
Todos tinham inventado um motivo para si. Todos menos Daniel. Ele viria confessar dez anos depois num almoço de páscoa que o chá da vovó não fazia lá tão bem para a cabeça como fazia para o estômago, pois naquela fatídica tarde não quis dizer a ninguém que Lunática, sua amiga da praia, era uma pedra lunar que segundo ele podia falar e que lhe disse que sabia voar, foi quando Daniel a jogou janela a fora, esperando que voltasse para casa bem.

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Terça-feira, Outubro 09, 2007

I

A vida é como um rio turbulento
Que nunca para de jorrar
Que jorra, jorra sem parar
É fluído, é instante, é momento
Incessante, passageiro
O mesmo de antes
E novo por inteiro
E as pedras que do leito esperam eternamente vendo o rio passar, fluir, jorrar, sem nunca esgotar, parecendo não sair do lugar.
Não quero ser uma pedra que vê a vida passar a cada instante sem sair do lugar.
Quero ser a gota que desce a corredeira que flui com a corrente da vida a morrer na imensidão do mar.


Augusto M. dos Anjos
25/02/06
8:10pm

PS. concebido há 3h embaixo de uma cachoeira

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Rito de passagem

(toda sociedade tem um rito de passagem para a vida adulta; desde a primitiva até a mais avançada. Creio e sinto que na sociedade moderna, como outros ritos, esse se constitui em sofrimento e perda. O caráter individualista da sociedade capitalista é nessa fase finalmente concretizado. Cada um por si e Deus contra todos , como manda o calvinismo cínico impregnado em cada um de nós de criação ocidentalmente globalizada. Em pensar que um dia o planeta só teria ocidente. Esse dia chegou.)

Nunca tive banda
Nem de rock, nem de samba
Juventude degradada

Nunca tive namorada
Pra suprir minha carência
Fui alma rechaçada
Em eterna clemência

A vida adulta (agora) é deprimente
Pois traz outra perda inerente
Quando os amigos se tornam colegas
A palavra solidão soa até piegas


Augusto M. dos Anjos
25/01/06
1:42 am

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Refração sem cor

Quando vejo as cicatrizes, percebo
Aquilo que outrora não concebia
E que agora, já me alienia
É do mundo que, o que sinto e penso, recebo

As cicatrizes?
Recalques de covardia
Recalques da rebeldia,
Da vergonha, do medo
E nunca da alegria

Feridas indissociáveis
Desse mundo sensível
Incuráveis
Visão coberta de cinza e corpo perecível

Só resta dor e solidão
Num mundo sem amor e paixão
E uma vida sem alento
O corpo é só o remendo
Haja vista as cicatrizes
Dessa vida sem matizes


Augusto M. dos Anjos
30/06/04
11:55 pm

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Sexta-feira, Outubro 05, 2007

Hedonismo – Mito ou Lenda

(Esse poema foi criado no 3º semestre da ESPM para uma aula de mershandising. O objetivo era fazer um paralelo entre a matéria e o livro do filósofo francês André Comte Sponville, Felicidade Desesperadamente. De alguma maneira conseguimos mostrar pela teoria do filósofo que as técnicas da aula causam infelicidade no consumidor. Segue o poema, e para quem quiser recomendo a leitura do livro.)


Eis aqui uma grande questão
Se algum dia existiu hedonismo ou não
Pois uma coisa, há de concordar que é fato
Se a felicidade existe, ela só pode ser em ato

Dizem do homem que procura proteger sua natureza
Mas dissso, meu amigo, já não tenho tanta certeza
O que me diz daquele que sempre quer a vida mais ativa
Que não consegue jamais se desfazer de expectativa

Expectativa, não há maior tormento
É a busca pelo objeto amado
Que só causa sofrimento
E o encontro idealizado
Seguido de um profundo enfado

Sponville errou quanto a expectativa
Pois ela vem do antro social
De forma a jamais ser deliberativa
E esta é a origem de todo mal

Ainda que tivesse alguma liberdade
O homem escolheria a infelicidade
Pra que aproveitar o momento
Se posso me empanturrar com alento

Desesperadamente?
Só se for a espera da morte
Que com alguma sorte
Virá rapidamente


Augusto M. Anjos
05/10/04
23:25

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Segunda-feira, Outubro 01, 2007

Ode ao Artista - “Manifesto de um Existencialismo Perdido”

A desconstrução faz a ação
O protesto faz o gesto
E num ato de glorificação
Escrevo o seguinte manifesto

Para uns era pura imitação
Para outros beleza, perfeição, razão
Para aqueles nada como o alvorecer
Que na manhã nublada fez o sol nascer

Para esses expressas um sentimento
Botar para fora um tormento
As mudanças do globo salientar
E logo tudo no mundo fragmentar

Porém para estes significa tudo questionar
E até a questão num sonho imaginar
Mas e para nós qual é a questão?
Qual o âmago do coração?

Diz-me, Oh grande artista
Como tu vês o mundo?
Como vou a fundo?
Como chego na visão idealista?

Me explica esse tormento
Esse que jaz em pensamento
Como devo concretizar
Se o vazio não deixa pensar?

O vazio é o vazio da existência
Em cuja função de permanência
Como a vida que degenera
Torna a arte uma quimera


Augusto M. dos Anjos
06/06/04
10:14 pm

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Terça-feira, Setembro 25, 2007

Ode a Atlas - Sofredor e Titã

Abençoado seja tu nobre Titã
A quem foi dada esta tarefa crucial
A que os humanos consideram vã
Mal sabem eles que um erro teu é fatal

Conta-me teu segredo
Como fazes tal façanha
Não quero mais sentir medo
Quero saber dessa artimanha

Não há no mundo punição igual
Àquela que foi dada ao imortal
De o mundo sustentar sem perdão
De jamais ouvir sequer gratidão

Sinto-me próximo de ti
E às vezes acho que entendo
Mas por vezes não compreendo
O que é essa dor que senti?
Por que essa vontade de tudo largar?
E de fato um alivio sentir
Quando o céu cair
E a todos matar

Nobre é aquele que vê nesta sina
Ela em si tão cretina
Não mais uma punição
Mas sua grande missão

Nobre é aquele que não a aceita
Que quando esta o peita
Tem coragem de dizer não

Porém mais nobre que todos és tu
Que aceita a missão sem rejeição
Sem uma única vã reclamação
Que segue adiante pela eternidade
Para o bem de todos
Mesmo sem trazer-lhe felicidade


Augusto M. dos Anjos
05/04/04
15:15

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Benevolente e Judas

Quem és tu para julgares aquele fascista
Não percebes que no fundo a ti dá igual
Não percebes que és em extremo egoísta
Não percebes que para ti isso é normal

Pensas ser um homem de bem
Mas a ti nada convém
E se convém, não é essa a questão
Pois no fundo, o que procuras é satisfação

O altruísmo é uma ilusão
Não fazes para ajudar
Se não para se gabar
Pois se é para sofrer não divides o pão

Poucos são aqueles capazes de tal sacrifício
Que passam pela provação sem suplício
Que são dignos de honraria
A todos os outros só baixaria


Augusto M. dos Anjos
24/11/03
9:40 pm

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Sábado, Setembro 15, 2007

Aos olhos do criador

(reflexões sobre a aula de semiótica, analizando o Mito da Caverna. Primeiro semestre de ESPM. Data precisa: incerta)


A mais perfeita imitação
A mentira que desvia
Em 3º grau e que alienia
É a arte para Platão

Uma forma de expressão
E um significado
Que lhe garante o pão e o bom-bocado
È a arte para o artesão

A combinação da palavra
Daquilo que surge num lampejo
Da forma de expor o desejo
E que na mente lavra
È a arte para o poeta

É o fruto da criação
Que surge da imaginação
Que torna palpável e tangível
Ao mundo o que é inteligível

Eis o erro de Platão
Pois é o artista o adão da criação
Deslocado desse mundo superficial
Cria seu próprio, e se aproxima do ideal

Porém, é a sina de todo criador
De que (no final) sua arte, já não lhe pertença
Pois é do expectador que virá sua sentença.

Augusto M. dos Anjos

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Um olhar sobre o Mundo

(Pieguas, eu sei!)


Olhe o mundo com os olhos de uma criança
Que desde a tenra infância
Não deixa de se fascinar
Não deixa de se apaixonar
Não deixa de se impressionar

Com olhos que tecem em cada coisa
Um olhar critico, misterioso
Que em sua meiga meninice
É tão simples e jocoso

È como a imensidão do mar
Que chega a cativar
Ou o perfume belo de uma flor
Na natureza a mais pura expressão do amor

Como um novo dia a nascer
Ou uma bela estrela a noite a brilhar
Mas, que estou fazendo aqui a me aborrecer
Há um mundo lá fora a se olhar.


Augusto M dos Anjos
07/07/03
2:32

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O Testemunho “ Fênix da Aurora”

(As coisas mais simples da vida podem gerar sentimentos mais complexos. Quando escrevi isso tinha terminado um colegial não tão feliz e no dia seguinte começavam as aulas do cursinho para entrar na ESPM, que eu acreditava ser uma grande mudança na minha vida e uma das épocas que seria das mais felizes e gloriosas. Eu estava certo.)


Amanhã é um novo começo, um novo dia
Amanhã a Aurora será mais clara
E as flores abrirão mais cedo para saudar a manhã
Para saudar o começo de uma nova Era
A era do renascimento
Amanhã deixarei de me preocupar com o passado
ou o futuro, e viverei o presente.
Amanhã começa uma luta
Uma luta por uma vida melhor,
Por sonhos perfeitos e realizados
Amanhã é o divisor de águas
O “antes de” e “depois de” da minha existência
Amanhã é o marco da vida futura
Quando a fênix renascerá das cinzas, do fogo de uma vida passada, para viver mais 500 anos na bonança, na alegria e na paz.
Eu sou a fênix, deixa queimar,
Deixa queimar pois amanhã só restará cinzas
Só restará pó,
E do pó ao pó, eu renascerei e viverei.


Augusto M. dos Anjos
05/03/03 (quarta-feira de cinzas)
10:40 pm

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Anseios à Dama da Noite

(Destaquei da ordem também os dois textos que postarei agora e logo em seguida. Foram destacados da seleção do baú porque não pude classifica-los apropriadamente. Pendem
mais para ensaisos do que para poemas mas ainda apresentam uma estrutura próxima da poesia, ainda que para isso teriamos que nos acostumar a múltiplos versos livres em uma única estrofe. Cabe ao leitor tirar suas próprias conclusões desse híbrido.)



Oh bela Lua que no céu brilha
Que me irradia com tanta alegria
Oh serena Senhora da noite
Ser puro de alma perfeita
Dama de singela beleza
Soberana no céu, triste em sua natureza
Oh Lua de imensas paixões,
De suplicas e venerações
Desce do céu à terra,
Desce e acalenta meu leito,
Desce em forma humana
E me torna perfeito
Toma substância; encarna!
Encarna e vem
Junta tua carne à minha
Me completa
Traz tua serenidade e sutileza, tua meiguice e
Tua singela malícia para os lençóis
Torna essa vida apreciativa
Torna minha vida mais ativa
Me faz teu boêmio,
Teu maroto menino, teu homem
Desce, eu te imploro
Desce por uma noite e seja Nova
Ausente no céu
Presente para mim
Desce; só esta noite é o que lhe peço!


Augusto M. dos Anjos
20/01/03
12:59 am

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Domingo, Setembro 09, 2007

Por que Aqui Estamos? – As Duas faces de uma moeda

(Eis o anti-poema de Cara)


Coroa



Por que aqui estamos?
Neste mundo decadente
Vivendo de forma inconseqüente

Por que aqui estamos
Chego a imaginar
Sem nunca a uma resposta chegar
Pois sempre teimamos em destruir
Um mundo que a tantos custou construir

Por que aqui estamos?

Aqui estamos num suplico agonizante
Num pedido de atenção perpetuante
Vivendo nos restos de um mundo
Onde devemos pedir clemência
Àqueles que se dizem humanos e são imundos

Aurélio pág 270 - [...Humano – Adj. 1. Relativo a homem 2. Humanitário 3. Que ama seu semelhante...]

Vivo em um mundo onde um homem mata o outro com a maior tranqüilidade
Vivo em um mundo onde o gênero humano carece de humanidade

Augusto M. dos Anjos
20/08/03 10:54pm

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Por que Aqui Estamos? – As Duas faces de uma moeda

(aproveitando a estrutura criada por mim de poema e anti-poema, desenvolvi dois poemas para um trabalho de sociologia no primeiro ano de faculdade. O trabalho consistia numa criação livre de diálogo com o longa-metragem independente "Nós que aqui estamos por vós esperamos", o tema do trabalho proposto pelo professor em resposta ao filme era "Por que aqui estamos?". Acompanhe a seguir o primeiro poema.)



Cara


Aqui estamos,
Por mero acaso?
Aqui estamos,
Por pura sina?
Aqui estamos,
Nessa rotina?
Até o ocaso?

Aqui estamos por muito mais
Aqui estamos por aprender
Na eterna luta do saber
Sem esquecer jamais
A verdadeira essência do ser

Aqui estamos momento a momento
Para alegria, para o tormento
Aqui estamos para a vida,
Com uma passagem só de ida

Aqui estamos para aproveitar,
Num simples e singelo gesto,
Que chega a ser até modesto,
Aqui estamos no ato de viver

Augusto M. dos Anjos
20/08/03 8:53pm

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Quinta-feira, Setembro 06, 2007

Resigna-ação

(Resigna-ação é o anti-poema de Câncer da Alma)



Eu me enganei
Pior sentimento que tu, óh Solidão
Agora bem sei
É esse sentimento imundo de resignação

Já não existe mais paixão
Porém já não existe mais dor
Nesse pobre e horrendo coração

Tu seguiste teu caminho
E no auge de tua evolução
Ainda me sinto aqui sozinho
Só não lhe dou mais atenção

Pior que tu, óh Solidão
É essa resignação
Tu apodreceste no meu leito
E do teu cadáver
Nasceu esse sentimento no meu peito

Não sei se ligo ou se não
Agora tanto faz
O veneno ou o pão
Pois esse sentimento que aqui jaz

É em si aquele que carece de emoção
É em si, meu amigo, a própria Resignação


Augusto M. dos Anjos
06/12/03
11:35 am

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Câncer da Alma

(Destaquei dois poemas da ordem cronológica dessa série adolescente que eu resolvi gora publicar, para mostrar uma estrutura poética que eu mesmo criei. Ela se baseia no método científico, assim como cada tese tem a sua antítese, cada poema pode vir a ter um anti-poema, esse abaixo é o poema o anti-poema lhes apresento logo mais)




Oh, moléstia da alma , Solidão
Oh, vazio que alastra o coração
Solidão eterna companheira
Da qual vem e vai, mas nunca é passageira

Oh, câncer da alma que me desgasta
A viver sempre essa vida casta
Num mundo com tantos e tão vazio
Estão todos condenados ao eterno frio

Elas vem e vão, jamais lhes agradarão por completo
Pois estais destinado ao eterno perpétuo

Oh, pior dos sentimentos, vá
Vá que não quero tua companhia
Vá, mas vai para longe, vai para lá
Tu és maldita, vil e mesquinha

Vai te deitar com outro
Vai consumir outro corpo vazio
Sai já de meu leito e vá embora
Pois neste coração não há lugar para ti agora



Augusto M. dos Anjos
15/08/02

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Quarta-feira, Setembro 05, 2007

O Sentido da Vida

(um poema não tão adolescente assim)


Qual o sentido da vida?
Será pura existência,
Ou será passagem de ida?

Qual o sentido da vida?
Será que tem essência,
Ou será que é partida?

Qual o sentido da vida?
Será a busca do saber?
Será a perfeição do ser?
Será a espera para morrer?

Não!!

Qual o sentido da vida,
Se não viver!?


Augusto M. dos Anjos
07/07/03 2:13

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Peregrino da Vida

(outro poema adolescente, esse um pouco mais otimista. Poderão reparar também no final desse poema, o começo do meu hedonismo temporal poético, marcando os minutos da concepção criativa)

Andarilho sem rumo,
Seguidor da multidão,
É com você que eu falo
Pois um dia vai cair de exaustão

De tanto caminhar, caminhar, caminhar
Sem nunca chegar, sem nunca parar
Sem uma razão, para sua missão

Deixe agora a multidão,
Segue teu próprio caminho,
O caminho a que te destina
Vive tua vida, é tua sina

Retira a pedra, remenda
Remenda o sapato
E segue...



Augusto M. dos Anjos
05/03/03
10:41 pm

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Pasárgada ao Reverso

(Mais um poema adolescente. Mal sabia eu que seria alvo de minha própria crítica. E hoje hei de bramar em alto e bom som "viva a Boêmia")

Deturpada sociedade que rege o mundo
Mundo de preceitos fúteis e imundos
Mundo sem igualdade, sem humildade
Humanos- sem humanidade

Mundo perfeito para os boêmios
Mas não para mim, apenas um ingênuo
Mundo perfeito para os espertos
Mas não àqueles que estão certos

Mundo de Glória e de Vitória
Mas não para eles, em vã trajetória
Peregrinos da usurpação
De vidas inúteis a procura de ação

E aqui estou eu, nesse mundo errado
Sem vida, sem malícia, apenas parado
Com a ingênua sensação da ninhez,
Deslocado



Augusto M. Anjos
15/10/02

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Segunda-feira, Setembro 03, 2007

Poema sem nome

(Resolvi tirar do baú uma série de poemas que escrevi principalmente na adolescência, mas que não tinham sido publicados ou pela preguiça de digitá-los, já que vieram antes do blog, ou pelo seu caráter essecivamente melâncólico, algo muito comum numa fase de mudanças, formação de pensamento e indignação com o mundo, como é a adolescência. Vão notar nessas próximas semanas que esses poemas tem uma forma mais primitiva, algo bem natural também, já que naquela época apenas escrevia para espairecer, sem pretensão de fazer algo bom; às vezes conseguia, na maioria do tempo não. O poema a seguir foi o primeiro que escrevi na vida, na época não coloquei nome então denominei-o agora de sem nome.)



O homem culpa a natureza de forma irracional
Culpa a natureza de apenas ser natural
E acaba levando tudo para o sentimental
Sem parar para usar o lógico-racional

Não se pode culpar a natureza
De forma tão perversa
Pois se torna até adversa
E acaba com toda a beleza

Talvez o único erro do homem seja pensar
E por isso logo vai acabar
Pois é o único animal passível de atacar seu semelhante.
Com uma facilidade abundante

O homem é um paradoxo
Pune o que não entende
Foi abençoado com a razão
Que perdição
Seu castigo é o sentimento
Pois vive em eterno tormento

Por isso penso que Deus não é perfeito
Pois sua melhor criação tem um defeito
Defeito, diferente dos outros animais, de estar longe da perfeição
É mesmo uma decepção


Augusto M Anjos
22/11/00

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Segunda-feira, Agosto 27, 2007

Espermograma

Pode existir episódio mais constrangedor para um homem do que passar por um espermograma? Sei que as mulheres que lerem isso dirão “isso não é nada perto de um papanicolau”, se formos comparar com as inúmeras provações pelas quais uma mulher tem de passar não haveriam folhas de papel ou kbytes suficientes, o natural privilégio masculino não está em questão, e sim um típico estigma social, expresso aqui na trivialidade e frieza de um exame laboratorial. Assim as mulheres que me perdoem mas o que estou para descrever é uma experiência não muito cotidiana.
Como em todo exame, fui recepcionado, meus dados foram inseridos no computador e fui encaminhado para a sala de espera, onde deveriam me chamar pelo nome. Os minutos passam e finalmente sou chamado. Acompanho a enfermeira até a sala da coleta. Aliás, bem diferente do imaginário de senso comum e popular, a enfermeira nunca é gostosa. Entramos na sala e ela prepara o material:
- O senhor conhece o procedimento?
Talvez por puro sadismo respondo:
- Não
- O senhor faz a assepsia peniana com esse algodão umedecido de soro, depois com esse umedecido com água, depois seca com essa gaze, abre o potinho, coleta todo o material, sem exceção, eu disse todo, fecha o potinho. Depois que tudo tiver acabado o senhor aperta esse botão e aguarda a atendente com o seu recibo. Ficou claro?
- Sim
A sala era aconchegante como um hospital, parede branca, luz branca, tudo com aquela ligeira impressão de estar tão limpo que está sujo. No meio da sala uma poltrona branca, coberta com um lençol descartável que a enfermeira estendera antes de sair. Em frente a TV, com transmissão via satélite e vídeo embutido. Ao lado um revisteiro com uma única playboy toda amassada e amarrotada dentro, que ninguém em sã consciência ousaria tocar suas páginas grudadas, nem que fosse da mulher mais gostosa do mundo; Playboy edição especial Angelina Jolie e Daniela Sarahyba fazem ménage com Gisele Bündchen. Não distante, o banheiro onde a assepsia deveria ser feita.
Tirei a camiseta e pendurei na arara. Arriei as calças. Comecei a assepsia. Incrível como o leve toque do algodão pode deixar alguém já em ponto de bala. Andando de calças arriadas com o potinho na mão, sente na poltrona e liguei a TV. Toda animação sumiu após 10 min perdidos tentando entender como colocar no canal necessário, tirando o bloqueio que a operadora coloca para canais adultos. O controle e a tela, que pareciam conter instruções em russo, me irritaram. “Foda-se”, apertei o play. Depois de um tempo estávamos prontos de novo. Eis que me ocorre, “Como coletar todo o material, não é logicamente possível.” Para quem não entendeu, vamos ao português claro, ou melhor, a física: a angulação do órgão, o potinho virado de boca para baixo logo acima do órgão angulado para captar o primeiro disparo, sim, mas a gravidade e o resto do “material” que não sairia num jato, mas logo em seguida. Ou seja, muita pontaria e agilidade com a mão esquerda, já que a direita estaria ocupada, além do desconforto da situação e do ambiente agregados. Ahh! E como não esquecer a estranheza proporcionada por estar sentado nu numa poltrona revestida com um lençol descartável, desses que lembram as fraldinhas de nenê.
Resolvi por bem tirar o resto das calças e cueca engruvinhadas no meu tornozelo. Pendurrei-as na arara. Comecei o inexorável e ritmado ato que me levara até lá para o exame. Até que não foi difícil, só o incomodo de um gesto tão privativo numa situação tão pública e formalizada.
“Pronto tudo no potinho, muito destro eu fui, ou será canhoto? Opa! Quase tudo.” “O que há de se fazer.” Fechei o potinho, me limpei, vesti as roupas, joguei o lençol no lixo e apertei o botão. 5 minutos depois me aparece a enfermeira:
- O senhor perdeu alguma coisa?
- Uma gota.
- Vou ver se o medico pode dispensá-lo, só um minuto por favor.
Mais 5 minutos.
- O senhor prefere voltar aqui outro dia e repetir o procedimento, ou assinar um termo dizendo que perdeu-se uma gota?
Era só o que me faltava.
- Você tá brincado né?
- ...
- Ta, eu assino o termo.
- Rubrique aqui e aqui para dizer que está ciente de que perdeu-se uma gota.
Como se alguém pudesse estar mais ciente do que eu.
- Seu medico será notificado.
- Ora, muito obrigado.
- Saída 2ª a direita.
Eis o cúmulo da burocracia hospitalar, assinar um termo por gozar fora do potinho. Não existe melhor definição para o caso, a não ser escroto.

Augusto M. Anjos
10/02/07 1:08pm

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Sexta-feira, Agosto 17, 2007

Brasil - Um País de pequeno-burgueses

(inspirado e tmabém "cansado" resolvi criar um novo marcador no meu blog. Chamará "K entre nós", e será onde comentarei notícias e assuntos do agenda setting nacional.)

Despropositada a reação de nosso Excelentíssimo Presidente Lula e seu "companheiro" de causa, o governador do Rio de Janeiro a um protesto pacífico durante um comício de inauguração de uma escola.
Esse país carece de políticos que aceitem críticas e a indignação da população a cerca da canalhagem de como as coisas tem sido levadas.
Afirma o presidente que meus queridos colegas universitários não tem consciência política. A meu ver, não há melhor oportunidade para se fazer ouvir sobre a crise educacional desse país do que na inauguração de uma escola, cito o reajuste salarial a 12 anos parado e motivo do protesto, sem falar no fracasso em que se configura a reforma universitária.
Falta de cosciência política é fechar os olhos a indignação da população, que se Cansei ou se Cansamos, não aguenta mais o lero-lero de sempre. Finalmente um pouco de espírito coletivo nessa nação tão desagregada e tudo que nossos governantes fazem é fechar os olhos. Fechar os olhos para uma crise mundial que não só afetou oBrasil como nos fez perder trilhões de reais em semanas.
Para quem lutou por democracia e igualdade uma vida inteira como sindicalista e revolucionário, nosso presidente parece ter esquecido totalmente suas origens. E falando em ideologia marxista, todo o cuidado é pouco com os pequeno-burgueses, termo que fora da doutrina vermelha pode equivaler a classe média.
Os pequeno-burgueses são o sustentáculo da opinião pública neste país. Afinal, venhamos e convenhamos o poder de influência da elite, como classe e desconsiderando instituições estabelecidas como a imprensa, nesse país é pouco significativo. Foram os pequeno-burgueses que elegeram Fernando Collor de Melo e foram eles que na última eleição elegeram Vossa Senhoria, o Todo Poderoso, Intocável e Icensurável Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Porque não é só de voto de pobre (como gosta de dizer o próprio) que se fez uma candidatura eleita em 80%. Talvez com atos semelhantes os famigerados pequeno-burgueses também se cansem;é o que veremos na próxima eleição.

Augusto M. Anjos
17/08/07 1:36pm
(referente a reportagem da Folha de S. Paulo de mesma data - Caderno Brasil, pág A6)

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Quinta-feira, Janeiro 04, 2007

A Pescaria

Dia manso,
Na beria do açude,

E o mosquito zumbi.
zzzzz. zzzz. zzzz,

E o dia passa,
E na vara nada,

E a pomba fogo apagou canta,
Fogo pagooo, fogo pagooo,

E chove espaçado,
Pingando de leve na beira d'água,
Bem de leve . . .

E a barriga ronca,
E nada.

Augusto M. dos Anjos
31/12/06
12:07 pm

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A Brisa

Na orla da praia a meditar
Eis que vem aquele cheiro salgado
Um ar meio mareado
Chega até o pulmão esquentar

Respiro fundo
O cheiro do mar
Sem pensar
viajo o mundo
Tão logo chego a meditar

Deve ser a brisa do mar.

Augusto M dos Anjos
09/12/06
12:38 am

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Serie IgNobel 2006 - Nem sempre a vitoria cheira bem

(Sei que estou meio atrasado, mas aqui está o primeiro conto basedado na reportagem dos ganhadores do Ignobel em 2006. Divirtam-se)


Nem sempre a vitória cheira bem

O Dr. Jacques Molié fora enviado como representante da Unesco à ilha de Bora-bora para erradicar uma terrível epidemia de malária. PHD pela universidade de Souborné, o doutor Jacques Molié era especialista no estudo de sistemas erradicativos de doenças letalmente infecto contagiosas. O doutor Jacques Molié já tinha erradicado o sarampo no Japão, a esquistossomose na Bolívia, a febre amarela no Zimbábue e a hipocrisia no palácio do planalto; e agora, pelo seu extenso e magnífico currículo estava dentro de um avião das Nações Unidas com destino à pequena ilha do Atlântico, para uma última missão antes de sua aposentadoria. Quem sabe dessa vez a missão não lhe rendesse a tão esperada Legião de Honra, ou quizá o tão cobiçado prêmio Nobel de biologia.
O Dr. Jacques Molié tinha um estranho método de proceder os seus estudos, o qual gostava de chamar de Biologia Antropológica. Seus procedimentos consistiam em entrar na rotina do povo nativo, experenciar a vida nativa numa pesquisa etnográfica, se possível contrair a doença para entender um meio de erradica-la.
Assim o fez, conversou com uma família e se instalou em sua cabana. Pela manhã iria vivenciar o típico dia de trabalho de um adulto bora-borano.
Pelo adiantado da hora pediu licença a família hospedeira e foi se instalar em sua rede. A noite não foi nada boa, alem de incessantes e insuportáveis mosquitos e pernilongos, a zumbir e picar, havia o fato de que dormir em rede não é um hábito muito usual para nosso amigo europeu ocidental, e portanto desconfortável.
Acordou pela manhã com milhares de feridas e picadas pelo corpo e uma ligeira dor nas costas. O café estava posto, banana e broa de milho com feijão, acompanhado de café preto, tipicamente bora-borense. Comeu. Vestiu os sapatos de couro de lagarto, confeccionados pela própria dona da casa, e foi com o chefe da família para a cidade trabalhar engraxando sapatos dos turistas e vendendo colares de conchas ou trocando sal por alimentos.
A cidade ficava à 15 km e como a família não tinha carro e o transporte público era precário deveriam ir a pé. Jacques nunca tinha feito um estudo tão desgastante, a vida desses nativos era dura e sofrida, mas Jacque não reparava neles traços de infelicidade. Poderia dizer até que eram felizes? Quem sabe?
Depois de um duro dia de trabalho deveria dedicar três horas ao menos à pesquisa. No entanto, decidiu primeiramente escrever para a mulher na França, pedindo que lhe enviasse brioches e queijo lindenburger. Não agüentaria por muito tempo aquele café da manhã, já que tinha o apurado paladar da alta gastronomia francesa.
Tirou os sapatos; escreveu a carta, começou a verificar depois em seus livros o ciclo de vida do mosquito hospedeiro e os principais aspectos do contágio da malária. Percebeu que as fêmeas, que em determinado momento crucial para o contágio deveriam procurar um lugar para depositar seus ovos, sentia forte atração por odores acentuados e característicos. Quem sabe aí a chave para um possível sistema de erradicação. Foi jantar.
A casa fedia ao chulé dos dois homens que trabalharam o dia inteiro com sol a pino e andaram 30 km para locomover-se do vilarejo a cidade e vice-versa. A mesa, rodeada de mosquitos naquele mormaço tropical tinha posta um ensopado de peixe de couro da lagoa e crustáceos da baía. Comeu o que pode da mistura com forte tempero nativo, com uma colher em uma mão, enquanto afastava com a outra os mosquitos da cumbuca. Foi deitar-se exausto, premeditando a horrível noite de sono.
Ao acordar, colocou logo as botas e sentiu um leve incomodo na palma do pé. Tirou o sapato para verificar o que era. Uma fêmea do mosquito da malária tinha escolhido seu sapato como repositório de ovos e no exato momento em que vestiu a bota, esmagou a pequena criatura, que em legítima defesa, num último ato desesperado, picou seu agressor, transmitindo-lhe a temida praga.
Agora tinha um motivo a mais para encontrar um sistema de erradicação contagiosa. O Dr. Jacques Mole não se abalou com o ocorrido. Ao invés disso observou atentamente o fato, pensando o porque o mosquito tinha escolhido seu calçado para colocar os ovos. Foi quando lembrou-se do que tinha lido a noite passada, odores fortes característicos, é o que dissera o livro. Teria o mosquito fêmea sido atraído por seu chulé? Era preciso comprovar empiricamente.
Não foi trabalhar, ao invés disso pegou todos os calçados do casebre que continham chulé, colocando-os em seu quarto, e observou o comportamento dos mosquitos o resto do dia. De fato, conseguiu provar, após 10 pares de calçados, 6 picadas, uma dor de cabeça, e uma incrível resistência adquirida ao cheiro de chulé, que o mosquito fêmea da malária era atraído pelo odor dos sapatos. Restava agora achar um meio de acabar com os mosquitos, ou com o chulé; uma pomada quem sabe; um estoque infindável de pó Granado cedido pela ONU. Alguma coisa pratica e rápida, mas o que?
Na manhã seguinte, na hora do café, a dona da cabana avisou ao Dr. Molié que sua encomenda tinha chegado. Jacques mal pode esperar, abriu o pacote e viu seus brioches e o queijo lindenberg, fechou os olhos e sentiu o cheiro do seu café da manhã a la francesa. Por um instante não entendeu, “esse cheiro me é familiar”, “É o cheiro do meu quarto”, “meu café tem o cheiro do meu quarto” “Voilà! O queijo lindenberg cheira chulé” “Allor, é essa minha chave para o sistema.”.
O Dr. Molié pediu a ONU uma provisão de uma tonelada de queijo lindenberg, criou um mosquiteiro que tinha como chamariz muito queijo lindenberg. Foi assim que o Dr. Jacques Molié erradicou a malária em Bora-bora, saiu nos principais jornais do mundo, escreveu sua tese, e com ela ganhou um...
Ignobel.
Pois é a comunidade científica achou que era piada e premiou Molié com algo que vai tornar a aposentadoria a melhor das opções. Hoje o Dr. Jacques Molié vive em sua casa de praia, em Bia Ritz, onde toma diariamente seus medicamentos contra malária.

Augusto M. Anjos
08/10/06
21:16

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Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Cativeiro

(Dia ruim. Prefiro não falar sobre isso. Ao invés falarei da raiva que sinto por não querer falar sobre isso. Basta.)

Cativeiro

O cativeiro é o abismo
Constante e severo estoicismo
Daquele que não tem para onde fugir
Bastando mais um algoz para ruir

O homem é o algoz de si mesmo
E não existe prisão
Existe a mente em submersão
O sentimento em introjeção
O ser humano em involução

Existe o recalque e o silêncio

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Sábado, Novembro 04, 2006

Serie IgNobel - Dor de Brio

( Desculpas antecipadas a todos os possíveis leitores que lutam jiu-jitsu ou tem pit-bull, às vezes temos que nos fazer dos esteriótipos para conseguir o tom que queremos no texto. Foi essa a estória que me veio a mente no momento que li a reportagem da Folha a respeito do vencedor do Ignobel de medicina de 2005, conto que resolvi retomar antes de escrever sobre os vencedores de 2006. Aproveitem)



Dor de Brio

Juliano era morador do Pacaembu, lutador de jiu-jitsu, estilo Gracie, dono de pit-bull macho, Átila, o huno matador.
Átila não era um pit-bull comum, era um procriador. Era o orgulho de seu dono por ser um símbolo de pura masculinidade e virilidade. Juliano gostava de seu pit-bull pois achava-o parecido consigo. Juliano era o que a biologia chama de macho-alfa. O machão Juliano, freqüentava academias todos os dias, 2 horas de halterofilismo e 1 hora de treino de jiu-jitsu, ia a raves constantemente, nas quais ficava sem camisa para mostrar os músculos às menininhas que quisessem ver. Tomava aminoácidos, anabolizantes, anfetaminas e estaminas, os dois primeiros no primeiro ritual, os outros dois no segundo. Conseguia as pílulas com o dinheiro da procriação de Átila.
Uma vez por dia, Juliano levava Átila para passear, esse por sua vez se recusava a colocar a fucinheira. Para dizer a verdade, Juliano até preferia assim, gostava de ver as pessoas na rua intimidadas com o porte e com a severidade de seu cão.
Um dia Átila estava desanimado e isso deixava Juliano preocupado. Ele não tinha comido sua costela de boi e não tinha brincado uma vez se quer de atacar, trucidar e morder no Bob velho que Juliano não usava mais para treinar seus golpes. Ficou o dia todo deitado no canto. No dia seguinte Átila tinha uma procriação marcada e isso começava a incomodar Juliano, o ânimo de Átila não poderia afetar sua performance.
Como previsto, na hora H, Átila não estava pra conversa. Deu duas cheiradinhas no ânus da cadela, ameaçou montar atrás dela, desceu e deitou no canto. Era a gota d’água, Átila devia ter um problema sério para comprometer assim sua reputação, pensou Juliano.
Juliano pegou a parati, colocou Átila na carga da pick-up e foi correndo para o veterinário.
A recepcionista, muito gostosa, entregou a senha a Juliano e pediu que se sentasse. No banco da recepção, logo ao lado de Juliano estava uma madame com seu poodle. Juliano estava indignado como Átila nem tinha ameaçado rosnar para o cachorrinho infeliz que o apurrinhava com seu latidinho estridente e infernal.
Juliano e Átila entram no consultório; o veterinário impressiona-se com o porte do cão; pede para Juliano coloca-lo na mesa, examina-o minuciosamente. De repente Juliano repara que o veterinário deteve-se muito tempo examinando o órgão sexual de seu cachorro. “será que esse veterinário é bicha?” pensou ele, “nenhuma bicha vai fica se divertindo no pau do meu cachorro”.
O médico tira a luva e pronuncia “é, sinto informar mas seu cachorro tem um tumor testicular. É isso que vem o deixando desanimado. Infelizmente, por ser maligno, teremos que extrair os testículos dele num processo operatório o quanto antes. Caso contrario seu pit-bull poderá vir a falecer. É necessário fazer a operação antes que o tumor se generalize. Deseja fazer a remoção agora?”
Por um minuto Juliano permaneceu em silêncio. Tentou não se mostrar abalado. E agora? Sem testículos Átila deixaria de ser um macho completo e sua fonte de renda extra seria interrompida. Ele queria um cachorro capado? Mas Átila era seu cachorro afinal de contas, com ou sem testículos. Ainda seria seu Átila.
“Opera agora”.
Na sala de espera Juliano estava apreensivo. E como não poderia, a partir de hoje teria um cachorro sem saco. No balcão, com decote super sensual, a recepcionista preenchia fichas dos novos clientes. Juliano ficou uns 30 segundos com o olhar preso e perdido naqueles fartos seios que quase saltavam da blusa. Quase deu um passo a frente para chaveca-la, aí lembrou onde estava, porque estava lá e porque estivera preocupado. Sentou-se, o poodle maldito continuava com seu latidinho. A vontade de Juliano era esmagar a cabeça do cachorrinho com a mão. Ao invés disso começou a folhear o jornal, tentando esquecer tudo mais. Como seria agora? Como seria andar na rua com um pit-bull sem testículos? Como se sentiria Átila daqui para frente?
Quanto mais os pensamentos atormentavam Juliano, mais tentava se distrair folheando o periódico. Foi quando deu de cara com a reportagem; um cientista finlandês havia ganhado um prêmio de notoriedade em medicina por inventar próteses testiculares para cachorros, em três tamanhos diferentes, dizia a reportagem.
Ali estava a solução, compraria do tal doutor as maiores próteses possíveis para compensar Átila de alguma forma.
Hoje Átila e Juliano passeiam felizes nas ruas, já não é a mesma coisa, claro; as pessoas já não se intimidam mais, porém Átila consegue chamar a atenção para seu dono, à sua maneira.

08/10/06
4:43 pm
Augusto M. dos Anjos

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Terça-feira, Setembro 12, 2006

Serie IgNobel - Que a força esteja conosco

(continuando a sátira aos premios Ignobel 2005, com reportagem na Folha de São Paulo, escrevi esse segundo conto sobre dois lunáticos que ganharam o prêmio Ignobel da paz por sua tentativa de provar a influência de filmes de ação na concretizaçaõ de atos violentos, submetendo a prova de 20 horas seguidas de exibição um… , por mais ridículo que pareça, a tal cobaia que teve seus estímulos "cerebrais" medidos. É tão estapafúrdio que tinha que escrever. Confira e descubra até onde vai a sencibilaidade de um…)

Que a Força esteja conosco

Três dias tinham se passado desde o começo da experiência. Se desse certo, seria a prova científica e derradeira de que filmes de violência afetam a psique humana. Afinal, se afetasse a psique daquela criatura afetaria a de qualquer coisa.
Tinha tido a brilhante idéia no começo da semana, depois de voltar frustrado de uma convenção na qual tinha sido ridicularizado por apresentar semelhante tese sem provas concretas e comprovações empíricas. Tudo que tinha que fazer era providenciar para que nada desse errado na experiência. Seria difícil conseguir tudo que fosse necessário para tal.
Foi até a locadora e alugou “Guerra nas Estrelas – A vingança dos Sith”, voltou para casa, arrumou o vídeo e uma tela grande. Preparou a pequena maca com mordaças; os eletrodos; os aparelhos sísmicos. Seu assistente não entendia nada.
Saíram para o campo, deveriam capturar a criatura. Pelo menos um dia foi gasto antes que pudessem voltar dos campos de trigo ao laboratório com seu objetivo cumprido.
Os eletrodos estavam agora ligados, o filme já passava 20 vezes e até o doutor já se compadecia por Anakin Skywalker. Os olhos da criatura permaneciam imóveis e sem expressão, os aparelhos nada acusavam. Como conseguiria provar que filmes de violência eram ruins para a humanidade se não conseguia extrair nem um resquício de emoção daquele gafanhoto, submetido a horas afim em frente da TV.
Olhou fixamente nos olhos do espécime; estaria ele ingressando no lado negro da Força?

Augusto M Anjos
18/11/05
9:12 am

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Sexta-feira, Setembro 08, 2006

À Pátria com Amor

“Independência ou Morte?” “Hum. Não sei! Não Tem uma terceira opção?” Salve, Salve meus compatriotas e patrícios, pois hoje é o dia da pátria. E ao que tudo indica, o brasileiro é patriota a cada 4 anos e sabe cantar só a primeira parte do hino. O grande problema do brasileiro é que este não se vê representado enquanto nação. É tanta falcatrua durante 506 anos de existência que o brasileiro tende a falar mal do pais só em terceira pessoa, como se não fosse brasileiro.
Comecemos consertando isso. Nós brasileiros não nos vemos representados por essa corja de ladrões e aproveitadores. Nós brasileiros, por conta disso, acabamos criando uma visão autocrítica para tudo e procuramos não nos envolver com nada que diga respeito a formação de uma futura nação. Sim, nós brasileiros adoramos feriado. Mas acabamos associando desfile, bandeira e hino à repressão, obrigatoriedade e militarismo. Aqui o desleixo é um tipo de patriotismo. Aqui o “foda-se” é uma ovação à liberdade. Nós que por tão pouco tempo fomos livres, passando da mão de um senhor Coronér a outro. Nós, no dia de hoje somos livres se dizemos “ Por que devo comemorar o grito de felicidade de um cara que se tornaria rei porque papai voltava para Portugal e que recebeu a notícia, enquanto dava uma cagadinha na beira do riacho, no meio do nada, entre a casa de sua amante e o palácio de sua mulher?” Independência ou Morte?
Morte! Morte ao fanatismo patriótico cego, que não enxerga as desgraças e abominações de nossa história, como o exemplo citado a cima. Morte ao eleitor burro, que vai eleger a quem lhe roubou por quatro anos, e, num sentimento de amor cristão, dará a outra face a tapa. Ou seria o outro bolso. Morte a esse mesmo eleitor burro que adota a política do “Não tem tu, vai tu mesmo” e vota nesse para aquele não ganhar, mas que se pudesse não votava em nenhum dos dois. Então não vota! Titulo de eleitor devia ser dado em razão do quociente de inteligência e não da idade. Não tem maturidade, não vota.
Eu escolho a morte como bom brasileiro. Pois só ela é a independência. Independência dessa cultura da ignorância e da falta de senso coletivo.
Morte sim, ao Brasil burro! Independência a essa outra nação que luta para nascer a cada dia. A cada gesto. A cada pleito e a cada voto. Feliz independência para vocês.

Augusto M. dos Anjos
07/09/06
10:49 am

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Quarta-feira, Setembro 06, 2006

Coisa de Momento

Já falamos sobre como é ter um dia daqueles. Mas você já teve um dia de perfeita felicidade, onde tudo parece dar certo sem motivo aparente. Minto, talvez sempre exista um motivo aparente para a felicidade. Já a recíproca não é verdadeira.
O meu motivo de felicidade, e isso pode parecer estranho, foi o fato de pedir demissão. Sim, se você nunca se demitiu não pode entender a sensação. A leveza e a alegria espontâneas de tirar um peso das costas, de se livrar daquele trabalho que nas últimas semanas se estagnou, perdeu o sentido, virou rotina. Aquele que já não traz aprendizado nenhum ou ganho, só estresse e dor de cabeça. E nesse momento, meu amigo, você tem dois caminhos a seguir, mudar ou acomodar-se. A segunda fará com que você se torne amargo, dia após dia, e comece a reparar apenas nos defeitos de seus colegas e da empresa, se tornará resistente a mudanças, você morrerá um pouco. Pessoalmente prefiro a primeira opção.
Assim sendo, pedi as contas, expliquei meus motivos e minha saída ficou programada para o final do mês. É desnecessário dizer que o resto do dia transcorreu placidamente. Um momento sublime de felicidade pura e presente, sem questionamentos. Um momento.
Por fim o dia acabara e um questionamento surgiu sim em minha mente. Sentia-me plenamente feliz por um dia inteiro e não queria escrever a respeito. Por quê?
Por quê escreve-se tão pouco sobre os sentimentos alegres? Por quê a tristeza e a melancolia imperam na literatura? São mais poéticas? E você questionará, mas os poetas falam de amor. Sim, eles falam, sem jamais deixar de comentar que também o amor traz sofrimento. Assim pouco se escreve sobre sentimentos de plena felicidade, e por quê?
Para isso, desenvolvi duas hipóteses:
Hipótese 1 – As pessoas valorizam, sadicamente, tudo que traz dor e sofrimento. Isso é fato. O quadro de um artista pode valer o dobro do preço se o mesmo artista estiver morto. “Ele jamais pintará de novo” “E por que você não apreciou a arte dele enquanto estava vivo” “Não sei! Pra dizer a verdade, nunca tinha ouvido a respeito dele. Morreu de quê?” “De fome!”
Sim, quando se trata de morte e desgraça a notícia se espalha, as pessoas agem como urubu em carniça. O ser humano não valoriza o bem precioso que tem e só se dá conta quando lhe é tirado. Mas assim, acaba vangloriando mais o final da jornada do que ela em si. O ser Humano é sádico, e sempre o será.
Hipótese 2 – Os momentos de felicidade são plenos e perfeitos em si mesmos, eles se bastam. Não carecem de definição. Já dizia Jack Trout “Definir é morrer”, e é verdade; ao definirmos algo, qualquer coisa, o limitamos a nossa errônea percepção, o diminuímos, o matamos um pouco em seu esplendor natural. Exemplo: O sol. O sol é. O sol é e apenas é. Nada mais. Diga quente, diga belo, diga saudoso num dia de chuva, diga alegre, diga, e já estará o diminuindo em sua essência. A essência é. Assim aqueles que puderam experenciar um dia pleno, ou até um único momento, não o defina. Não de imediato, não enquanto ele perdura. Ele é pleno e não carece de definição. E quando este tiver acabado, aí sim, defina-o para que reste dele a lembrança que se deteriorará e que a definição ajudará a conservar. Por isso escrevo isso hoje, por isso ontem não tive vontade de escrever. E esse é o conselho que lhe dou: se por acaso você foi agraciado com um raro momento de felicidade, não pense, não defina, não classifique. Curta. Viva. Aproveite.

Augusto M. Anjos
24/08/06 11:35 am

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Terça-feira, Agosto 29, 2006

Serie IgNobel - A Maquina

( Em julho de 2005 li na Folha de São Paulo, uma reportagem sobre o IgNóbel, uma espécie de prêmio de mensão de desonrosa dada as pesquisas mais inúteis realizadas no campo acadêmico. Funciona como o prêmio Framboesa, Leonardo di Caprio ganhou o prêmio Framboesa de pior ator em Titanic. O IgNóbel está para o Nóbel, assim como o Framboesa está para o Oscar. Enfim, Vi a reportagem e me interessei pela história de cada um daqueles duentes mentais que se intitularam cientistas e gastaram seu tempo e recursos financeiros em projetos que não provam absolutamente nada. Na época fiz dois contos com base em duas categorias. não consegui cumprir a missão de redicularizar cada uma das 10 categorias. e para aqueles que não acreditam em mim a qui vai um link: http://jscms.jrn.columbia.edu/cns/2005-04-19/blask-alarmclocky)



A Máquina

Toda manhã era a mesma coisa , acordava tarde por ter desligado o despertador para dormir mais. Era a terceira vez na semana que chegaria atrasado mais de três horas no trabalho e seu chefe já estava ameaçando demiti-lo se aquilo se repetisse.
Atrasado por atrasado, resolveu tomar um banho e um bom café. Afinal merecia. Não tinha dormido direito a noite por causa dos seus temores noturnos.
A água gelada sempre o ajudava a acordar melhor. O sol abundante entrava pelo vitrô do banheiro. A chuveirada molhava seu coro cabeludo e a preguiça escorria com a água como se fosse sujeira. Começava a acordar. No entanto, sabia que nem o banho nem qualquer outra coisa lhe serviria, seu dia seria uma merda.
Café preto e bem forte sem açúcar; para acordar de vez, e uma torrada com geléia para quebrar o amargo. Nó na gravata. Duas passadas de chave na porta.
O ônibus lotado e o calor insuportável o aborreciam. Sua camisa de linho branco, límpida e engomada, começava a ficar suada. Odiava ficar com rodelas de suor nas axilas, logo abaixo do braço, no vulgo pizzas, certamente seriam comentadas de forma jocosa no trabalho.
Seu chefe como de costume, e com razão, já começava a latir. Começara o sermão da montanha. “tem muita gente aí fora que queria seu emprego”. Bla, bla, bla, bla, bla, bla! Depois de um discurso de 30 minutos sentou em sua mesa. Corrigindo, seu misero e ínfimo cubículo, tão apertado e tão lotado de papeis que o porta-retrato nem ficava em pé. Quarenta e cinco minutos de trabalho e logo seria o horário de almoço. Qualquer relatório ou processo que fosse iniciado agora demoraria pelo menos uma hora e meia, e interromper o raciocínio na elaboração de algo tão importante seria prejudicial. Sentia-se um inútil. Não era preguiçoso, fora esforçado e competente, mas aqueles temores noturnos e as horas a mais de sono estavam acabando com sua vida. Tudo estava desmoronando, sua carreira, sua saúde, seu ânimo. Aquilo deveria ser resolvido. Mas como?
Resolveu ler o jornal. Pelo menos se manteria informado e poderia manter uma boa conversa durante o almoço sobre os assuntos mais recentes e importantes da política econômica brasileira.
De repente algo lhe chamou a atenção. Na página 2 do caderno de ciências, viu uma reportagem sobre um prêmio dado a cientistas por suas pesquisas e invenções de inutilidade pública. A ganhadora da categoria de economia, uma respeitável acadêmica americana, tinha inventado um despertador revolucionário. Ao soar o gongo, esse fugia de seu dono, para que o mesmo não conseguisse desligá-lo. Era exatamente o que precisava. A solução para todos os seus problemas. Recortou o artigo e o guardou cuidadosamente em sua pasta.
Durante o almoço fez um interurbano para Boston, Massachusetts, para falar com a tal doutora. Tudo acertado, dentro de três dias a doutora americana mandaria seu modelo experimental de despertador por um serviço de corrier. Dentro de três dias tudo seria resolvido.
Três da manhã, acordava mais uma vez por causa dos seus temores. As doenças do sono acabam com a vida de qualquer cidadão. No entanto, dali a quatro horas iria se levantar, quer quisesse ou não, ou então reclamaria formalmente para a tal doutora.
Triiiiiiimmmmmmmm. 7 horas, um barulho infernal chega a seus ouvidos, o maldito despertador começa a tocar como se para avisar que o prédio estivesse em chamas. Acorda de sopetão e bate a cabeça na estante de livros a cima da cama. Num momento de raiva profunda se atira para cima do despertador, e no ímpeto, chuta o criado-mudo sentindo uma dor miserável no dedinho do pé. O despertador, ao pressentir o perigo de ser desligado, pula do criado-mudo, passa por debaixo das pernas de seu dono e saí correndo pela casa, batendo nas quinas e tocando cada vez mais alto.
Começa a perseguição. Desligá-lo parece uma tarefa impossível. O dono, munido de uma frigideira para esmaga-lo sem piedade, segue o insuportável som em seus ouvidos para tentar apanhar a invenção mais cretina já inventada pela humanidade.em seu volume máximo, o som do despertador agora se mescla com o interfone de vizinhos reclamando e da campainha tocada veementemente pelo zelador.
Abre-se a porta, a inevitável discussão, seguida de explicações e de desculpas começa. Enquanto isso, o despertador fabricado pela besta americana em forma de mulher, que tinha como objetivo trazer o apocalipse para o cotidiano alheio, desce as escadas de emergência, acordando o resto dos insistentes e dorminhocos condôminos. Prontamente, o zelador, com sua espingarda carregada, institui uma comissão de moradores revoltados para realizar a caça à abominável máquina criada para gritar mais que uma mulher em trabalho de parto. Descem as escadas perseguindo esta que agora, com parafusos a menos, toca ainda mais alto, se é que fosse possível. Depois de 10 longos minutos de perseguição o despertador é espatifado em inúmeros pedaços e finalmente para de tocar, para a graça de todos os viventes.
Nosso protagonista, decide por fim e definitivamente que a melhor das soluções são consultas periódicas a um terapeuta especializado, no Instituto do Sono, na tua Botucatu, localizada nessa imensa e estressante metrópole.

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Briefing Knorr

(Fiz esse texto numa aula de redação. A tarefa era fazer um texto criativo comparando duas frases, uma do famoso Jack Trout, "definir é morrer", e a outra não lembro mas dizia algo sobre os entraves criativos quando se têm muitos poréns. O texto deveria ter precisamente 20 linhas, óbvio que em letra corrida alcancei a meta. O fato é que fui criticado por meus amigos de planejamento, pois eu faço minha especialização em planejamento apesar do fato de ter um pézinho na criação. O que expressei aqui com metáforas sobre a criação e a sopa primordial é minha sincera opinião. Eu bem sei o quanto o trabalho de um planejador é importante, mas ele deve fazer um briefing que dê espaço para o criativo. Deve ser um briefing Sopão Knorr, você dá o caldo de feijão e deixe o cozinheiro colocar a carne, a batatinha, a cenoura e o macarrão.)

Briefing Knorr

Tivera Deus um briefing ao criar o mundo? Um documento exacerbadamente detalhado dizendo no 1º dia crie a luz. No 2º a terra, no 3º os mares, no 4º, precisamente no 4º dia, crie a vida e com a vida no 5º dia crie os animais, para no sexto, e só no sexto, criar o cara que vai definir tudo, classificar tudo, organizar tudo. Finalmente no 7º, descanse com a frustração e o fiasco da última criação.
Não! Certamente o mundo não foi criado a partir de um briefing. O processo criativo se abstém de regras, é subversivo, é anarquista, é descontrolado, é outsider, é o resultado de múltiplas vivências e influências do mundo, e a destruição de todas elas para criar uma coisa extremamente nova e original. Assim um briefing deve se limitar apenas a ater a criação a vontade de seu mecena, o produto, o cliente; pois o criador não é um artista. Mas deus sim, o era. E por isso fez sopa.

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Quarta-feira, Agosto 16, 2006

Socorro! Eu prefiro o PCC

Existe uma facção ainda mais poderosa e maquiavélica do que o PCC, capaz de instalar o caos na cidade de São Paulo em segundos e perpetuá-lo por todo um dia. Eles são os metroviários.
A cena que vi quando sai de casa hoje foi indescritível. Por mais que estivesse preparado e informado a respeito da greve, o que presenciei me surpreendeu. Me sentia dentro do filme “Impacto Profundo”, os carros atolavam as ruas sem deixar um milésimo de centímetro livre; os ônibus tinham passageiros saindo pela janela e as portas já não fechavam. Havia quem andasse pelas ruas e fosse mais rápido que os automóveis. Olhava aquilo e pensava quando viria a onda gigante, causada pelo meteoro, para matar a todos afogados.
Resolvi aderir e caminhei. Caminhei da minha casa, próximo a igreja de São Judas, até o primeiro ponto da avenida Paulista, em frente ao Bradesco.
Em minha caminhada pude apreciar a cidade como há muito não fazia. Se estressar com o inevitável? Por quê? Andava com “Bitter Sweet Symphony” na cabeça. Andava pensando “Nothing is gonna change my mood”. Andava apreciando o sol que aquecia a manhã e o fulgor das poucas árvores e flores; e, obviamente, andava apreciando o caos. Sim o caos; é curioso andar e reparar como as pessoas reagem sob o inevitável. Há aqueles que como eu, andavam rumo ao trabalho, conversando alegres, mas preocupados com a hora que chegariam. Mas há também aqueles, que sentam desolados no ponto, com cara de bunda, à espera de um ônibus em que consigam embarcar. Desses tenho pena. Há também aqueles que se aproveitam da situação para entregar muitos folhetos e vender água e guloseimas nos faróis. Depois de dez minutos de caminhada, resolvi lembrar da minha época de legionário e cantei “Faroeste Caboclo” inteiro.
É engraçado parar para pensar a respeito. É preciso a cidade inteira parar, para que se comece novamente a percebê-la. Percebê-la como se deve.
Afinal esse é o papel do caos, destruir para reconstruir, para aperfeiçoar, ainda que para os poucos que percebam a modificação. Não, não sou um anarquista. Mas é fato que o caos tem em si o gérmen da vida. Mas isso é estória para outro dia.


Augusto M dos Anjos
15/08/06

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Síndrome do Tédio

Estou no carro dirigindo ao léu, é domingo. Como em todo o domingo o tédio é inevitável. Mas ultimamente o tédio tem ganhado uma perspectiva diferente para mim, vem com uma dose extra de melancolia e costuma se estender pelo resto da semana. Mas definitivamente, domingo é sempre a gota d’água, sempre um saco.
Ficar parado sem fazer nada faz a gente pensar. Pensar sobre o porque está parado. Pensar sobre a vida e sobre o que a deixou assim. Claro que de ante mão já sei a resposta do porque estou parado. Estou sem dinheiro, e sem ele não se faz nada em São Paulo, por isso fiquei em casa os últimos três finais de semana, sem fazer nada. Também estou sem amigos. Calma, não é sessão terapia. Tenho amigos, muitos, só que no momento cada amigo tem sua própria turma ou sua própria companhia. Sabe quando mamãe, de saco cheio, te dizia “vá procurar sua turma” porque você era muito pequeno para ouvir, em bom português, vai se foder. Pois tenho procurado minha turma. Mas no momento estou em casa, parado, fazendo nada.
É estranho. Outro dia fui visitar um grande amigo numa situação bem pior que a minha: surto de síndrome do pânico. Às vezes dou graças a deus ironicamente, por estar tão infeliz por tanto tempo e , ainda assim, nada parecido me aconteceu; soube sempre lidar com meus problemas sozinho. Na maioria das vezes era assim que tinha de resolvê-los.
Ao ouvir a descrição dos sintomas da boca de meu amigo, “como se fosse uma ataque de 5 minutos, bate um desespero profundo onde quero voltar pra casa”, percebei que tantos outros que conhecia já tinham apresentado histórico semelhante. As doenças da modernidade me assuntam.
Mas recapitulando, é domingo. Eu, na inutilidade do meu tédio, começo a pensar um monte de merda. São 18 horas e não sai de casa. O tédio atinge um nível crítico desesperador. Preciso sair. Pegar o carro e andar na cidade. Peguei os filmes a serem devolvidos à locadora e fui. É a segunda vez que isso acontece. No começo do ano, sozinho em casa, o tédio tinha atingido também uma dimensão catastrófica e tive que sair; também um domingo, em plena madrugada, simplesmente para andar de carro, espairecer. Passeios Noturnos.
No passeio de hoje, comecei a desenvolver uma teoria sobre o que sentia; em verdade, penso que desenvolvi a antítese da síndrome do pânico. A Síndrome do Tédio. Devastadora, aniquiladora, ela pode acabar com um fim de semana perfeito. Os sintomas são paradoxais aos de sua síndrome irmã. Vem, como que por decreto, um surto de desespero, um súbito descontentamento exacerbado, e a certeza absoluta do que deve ser feito: “Tenho que sair de casa!” “Agora!”
Você já sentiu um tédio tão avassalador que te fez largar tudo que fazia, ou não fazia e partir? Você já saiu de casa, sem destino certo, apenas para pensar o que tem feito de errado e colocar a vida em perspectiva?
É Domingo. Parta. Pense. Mexa-se.

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Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Pieguice.com

(PS: particularmente não gosto desse texto. Escrevi em 2004 e apesar de permanecer atual, recebi uma maldição online hoje, ele me recorda de um Augusto radical. Típico idealismo utópico de final de adolescência. E obiviamente uma era A.G, antes do Gmail. Não tenho mais tanta raiva de correntes assim, mesmo pq o internauta evoluiu. Aquela época era email e internet. Hoje temos MSN, Skype, Gmail, etc. Divirtam-se e recordem.)

Alguma vez na vida vocês já receberam alguma corrente por e-mail? Ou quem sabe uma mensagem cheia de florzinhas e ursinhos se beijando que dá até nojo, informando que se você realmente tiver algum amigo, esse glorioso e-mail vai te ajudar a reconhecê-los? Como?!! É fácil, é só mandar para todos aqueles que você considera seus verdadeiros amigos, ou seja, todos os idiotas na sua lista, e torcer para que eles te mandem de volta.
Ahhh, mas não vai esquecer de mandar esse e-mail de volta pro suicida carente por atenção que te enviou essa mensagem.
Não? Nunca receberam não? Então tá, vamos ver se outro exemplo soa familiar.
“MUITO IMPORTANTE, não quebre essa corrente, Robert Smith quebrou essa corrente e foi atropelado por uma manada de elefantes no meio de Manhatan, Jane Jings quebrou essa corrente e foi devorada por piranhas assassinas africanas enquanto tomava banho em sua jacuzzi, numa casa de campo no estado da Pensilvânia, Billy Wendy queboru essa corrente e apenas uma hora depois perdeu o emprego, se divorciou de sua mulher e descobriu que tinha câncer. Mande AGORA MESMO essa mensagem para 50 pessoas ou coisas terríveis podem acontecer. ATENÇÃO esse e-mail deve sair de sua caixa de entrada dentro das próximas três horas ou não me responsabilizo pelas conseqüências.”
Não? Também não soou familiar?? Ahã, que tal essa então?
“Não quebre essa corrente. Esse Tantra Sagrado já deu mais de 200 voltas no mundo espalhando a paz e a felicidade e foi elaborado pelo próprio Buda. Por favor, não delete essa mensagem antes de ler.” E quando você abre o ppt, fotinhos bonitinhas de cachorrinhos, bebês e casais de terceira idade saltam em sua tela com as seguintes frases: “saia na chuva”, “dê um banho em seu cachorro”, “sorria mais vezes”, “beba mais água” , “não deixe o rancor te corromper”, “perdoe e peça perdão”, “plante uma árvore”, “compre o livro do Da Lai Lama”. E no último slide você se depara com: “Envie isso para 30 pessoas e você será miseravelmente feliz, envie isso para 80 pessoas e você será razoavelmente feliz, envie para 200 pessoas e amanhã acontecerá uma grande surpresa em sua vida, envie para 500 pessoas e você será muito feliz, envie isso para 1255 pessoas e você atingirá o nirvana na terra. Pode acreditar que dá certo.” Ah e não esqueça de fazer um pedido para que o Tantra Sagrado realize trazendo paz e prosperidade para sua casa. Hahaha.
É claro que vocês já receberam um e-mail assim, todo mundo só recebe e-mails assim. Afinal é só esse tipo de lixo que circula na internet. Acho que chegou a hora de revermos nossos conceitos e começar a usar a internet para enviar coisas melhores, coisas com mais conteúdo, coisas que realmente acrescentem algo útil em nossas vidas, e não essa pieguice que circula por e-mail te falando tudo aquilo que você já sabia, ou, se não sabia aprenderia facilmente alugando um filminho adocicado no domingo à tarde, aqueles em que a mocinha acaba com o mocinho, eles aprendem uma grande lição e todos vivem felizes para sempre.
Claro que uma saída fácil seria simplesmente parar de mandar e-mails, ou simplesmente parar de abri-los. Não, já tentei. No entanto percebi que não adianta e que os tantras da vida e as maldições online e as declarações de amor do ursinho Pooh não bao desaparecer só porque quero, ou só porque acho que isso não tem proveito algum para um veículo de comunicação que poderia ser muito mais explorado a favor da cultura e da politização de uma população que carece totalmente das duas supracitadas ( e quando digo população não me refiro as classes de baixa renda, que obviamente não tem acesso a tais meios).
Em todo caso, não há nada que se possa fazer, a não ser aderir e tentar mudar isso de dentro para fora. E já que é para partir pra pieguice... se não pode vencê-los, junte-se a eles. Por isso proponho o movimento de cultura anti-social online, pelo menos para mensagens de pura originalidade, como os exemplos citados nesse educado manifesto. Diga não à pieguice.com, torne a internet um veículo um pouco mais interessante. Não quebre essa porra de corrente e mande essa mensagem para todos os seus amigos, depois mande um e-mail de volta para o amigo que te enviou essa mensagem, mandando ele à merda, como um sinal positivo de anti-socialismo online por ele ter te enviado mais outra maldita corrente.

Augusto M. Anjos
28/07/04

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Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Testamento de um Hedonista

Quantos dias a vida nos reserva?
Para uns dezenas de anos. Para outros semanas ou minutos. E pra mim? Não sei. Não sei quanto ao tempo. Só o tempo sabe do tempo. Sei o que quero. Sei o que mereço. Sei aquilo que há de se realizar; com o meu tempo.
Às vezes a vida passa por entre as mãos, como água, e quando vemos ela escapou. Quando vemos temos 80 naos porque já vivemos muito, e não vivemos nada. Não quero viver tanto se tiver que olhar para trás e não ver nada construido, nenhuma boa lembrança, nenhuma alegria. Não quero uma vida só de arrependimentos. Quero viver. Anseio pela vida. Anseio pelo hedonismo, pelo prazer, pela felicidade.
A maioria das pessoas more de descontentamento, de solidão, de desgosto, de angústia, de rancor, de ódio. Quero morrer num orgasmo ao olhar o por do sol numa colina esplendorosa. Quero morrer fazendo rafting no rio caudoloso e feroz da vida. Não sei quantos dias a vida me reserva. Mas sei o que reservo para a vida.


Augusto M.dos Anjos
11/09/05 11:59 pm

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Una Lamúria Murmurosa en la Noche

(escrevi esse texto em memória de Fernanda Sasahara, por todas as lágrimas que não pude derramar em sua partida, naquele dia)



Soturno caminante noturno
Soturno a andar por las calles
Con su paraguas negro a caminar con la muerte
De la muerte es novio, bebe el vino amargo de su copa sin miedo
Tiene la certitumbre de su presencia al su lado, como al de toda la humanidad
Soturno caminante que no tiene amigos para no perdielos para su novia.

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Quarta-feira, Agosto 09, 2006

Siberia

(Durante o terceiro semestre da faculdade, em 2004, foi solicitado para um trabalho de LP, que parafraseássemos a cegueira branca de Saramago. Fiz o poema a seguir para acompanhar uma performance sinestésica do grupo em sala de aula. divirtam-se e se puderem leiam o mestre Saramago em "Ensaio sobre a Cegueira")

Sibéria

Solidão e frio é do que tenho consciência
Assim é a vida na sibéria
Uma completa e permanente miséria
Em que se resume toda a existência

O Frio nos mata devagar
Primeiro o tato e já nada posso tocar
Com a certeza que de fato
Tão cedo irei congelar

As mãos que tocam sem sentir
E a palma do outro a retribuir
E o carinho de ambos já vazio
Hei de morrer de frio
Hei de morrer de frio

O ar gelado adormece a lingual
Lá se vai o Paladar
E a cada dia o sabor mingua
Já não conseguirei falar
Foisse o beijo macio
Hei de morrer de frio

Perante o mundo um ar de arrogância
Da gélida corrente da indiferença
Tudo apresenta a insossa fragrância
O aroma do nada que me faz presença
E me tapam as narinas com veemência

Os discursos do homem já não me afetam
Jamais poderiam, não me dizem respeito
Escolhi não ouvir quando se manifestam
Discursos, formas vazias de causa e efeito
Trazem consigo um conceito tardio
Com certeza hei de morrer de frio

No meio da neve a caminhar
Tantos em volta e eu sem notar
A neve que cai embaça a visão
A alva brancura do irônico estio
E dentro de mim a escuridão
Hei de morrer de frio

Hei de morrer ou já morri
Eis a dura chaga da solidão
Não poder dizer ao certo
Quanto tempo eu vivi
Espero do outro a compaixão
Mas não posso vê-lo se está perto
Pois foi assim que escolhi

Sinto Frio como nunca senti antes
Já não posso dizer se estou vivo ou morto
A vida já não me traz nenhum conforto



Augusto M. dos Anjos
2004

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